domingo, 10 de maio de 2026

Baixada



Baixada

com toda essa timidez

tu és bonita demais.

Levada? Fama talvez.

Levada ou não tanto faz.

Baixada,

pintam maldade,

miséria, dor, agonia,

mas não a felicidade

que mora no dia a dia.

A bola rola um colosso,

feijoada no quintal,

terra de velho, de moço,

de garra fenomenal.

O boteco do “Seu Zé”

tem uma pinga de jeito,

cura mágoa, dor no pé,

as “ziqueziras” do peito,

ingratidão de mulher,

um trago só e tá feito.

Salta a cerveja gelada,

trás o copo para o Adauto,

hoje a conta ta zerada

põe lá no prego mais alto,

e uma conversa afiada

e a roda cresce num salto.

O trem que corta a Baixada

trás pendurada a alegria

ao som de uma batucada,

samba, suor, poesia;

se a vida for complicada

sorrisos têm por magia.

Minha Baixada é assim,

há um otimismo sem fim

dobrando as mágoas de alguém

e na cabeça a noção:

o sol que doura a mansão

doura o casebre também.

Nossa Baixada é assim,

acordes de um bandolim

entram na alma da gente

e um violão displicente

nos dedos de um aprendiz

desafina, pedem bis

na ânsia de incentivar,

alguém murmura baixinho

uma canção de ninar.

De algum lugar

vem um cheiro,

um cheiro bom de tempero

que toma conta do ar.

Essa é a Baixada da gente,

Um jeito bom de viver,

se há humildade aparente

há uma riqueza de ser.

Baixada quem te conhece

sabe da tua candura,

sabe da tua ternura,

doçura de lambuzar,

os bouguevilles debruçam

nos muros de separar,

E as bananeiras arcadas,

goiabeiras carregadas

mangas, caquis, araçás.

Ainda se encontram faceiras

cana caiana, touceiras

docinhas pelos quintais.

Quando se fala em Baixada

tem muita gente emproada

que às vezes torce o nariz.

Nossa Baixada é decente

É terra, é berço da gente

que luta, mas é feliz.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Sabes?


Sabes de que

que eu tenho saudade?

Do jeito tão doce

que olhavas para mim,

aqueles sorrisos

por tudo, por nada,

a vida encantada

eu julgava sem fim.

Sabes de que

que eu tenho saudade?

Da cumplicidade

e o amor que existiam.

Eu era metade,

você a metade

e as duas metades

num só se fundiam.

Sabes de que

que eu tenho saudade?

do beijo, Ah! o beijo

que a gente se dava

e se demorava

alheio ao redor.

O mundo era nosso,

um mundo maior,

cabiam meus sonhos

e eram bastantes,

cabiam teus sonhos

demais fascinantes

e tantos projetos,

roteiros demais.

Sabes de que

que eu tenho saudade?

da paz,

a paz que existia

nos nossos abraços,

a gente prendia

a ternura nos laços

e o tempo era escasso

pra tanto se dar.

Sabes de que

que eu tenho saudade?

Eu tenho saudade

do tempo de ousar.

Me dar por inteiro

sem me machucar

Eu tenho saudade

de olhar nos teus olhos

sem medo de olhar.

quarta-feira, 18 de março de 2026

João Prado homenageado


 A edição de março do Garimpo - Mensário de Poesia e Espiritualidade prestou uma bela homenagem ao poeta João Prado. Poetas de várias partes do Brasil escreveram versos dedicados ao Poeta do Otimismo, compondo assim uma verdadeira carta de amor e gratidão pelo seu trabalho.

O Garimpo, cujo título foi inspirado no segundo livro de João Prado, é um boletim poético virtual publicado desde 2016. A edição dedicada a João Prado pode ser baixada gratuitamente CLICANDO AQUI.

terça-feira, 10 de março de 2026

Reconhecimento


Era um mendigo velho,

bem velhinho,

Os olhos muito azuis,

corpo magrinho,

As mãos tão enrugadas

coitadinho.

As faces castigadas

sem carinho,

as vestes tão surradas,

desalinho,

futuro quase nada,

miudinho.

A fé inabalada

e tão sozinho,

sentou-se sob a ponte

e sobre o chão

juntou toda ternura

e devoção.

E então com muita fé

ergueu sua latinha

de café

e meio pão

e agradeceu a Deus

a refeição.

domingo, 1 de setembro de 2024

Depoimento de tragédia urbana


Aí ela pegou a faca

eu vi, seu moço

e ZÁS, com um golpe frio

e do pescoço

o sangue fez jorrar.

De nada valeu da morta

a resistência,

pois ela demonstrava ter

experiência no jeito de matar.

Depois então

da água que fervia no fogão

sobre o corpo inerte derramou.

Aí, ato contínuo

friamente

foi-lhe tirando as roupas

bruscamente

até que o corpo inteiro

desnudou.

E a cabeça fez-se decepada,

as coxas também foram separadas

e o tronco num só golpe

aberto ao meio.

Picou-lhe em pedacinhos,

disparate.

Pôs sal, pôs cebolinha,

pôs tomate,

depois de lhe arrancar

todo o recheio.

Havia uma emoção

nos olhos dela

quando temperou toda a galinha

e pôs pra cozinhar

numa panela.

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Origem


E se me perguntarem nas andanças

onde eu aprendi versos de amor;

Onde eu encontrei tanta esperança

E em que caminho afinal achei a flor;


E se me perguntarem aonde eu for

se existe céu assim tão estrelado

Ou apenas é ilusão de um sonhador

que anda vez em quando tresloucado;


E se me perguntarem onde a lua

brilha com tamanha intensidade.

E onde eu encontrei a tal da rua

na qual reside o amor, felicidade;


E onde é a terra promissora

de gente com amor pelo torrão;

e a cidadezinha encantadora

da qual se for preciso eu beijo o chão;


E se me perguntarem em que praça

a gente ainda encontra poesia;

E onde a lua brinca, faz pirraça,

na ânsia de ficar por todo o dia;


Onde é a terra hospitaleira

de gente fim de tarde na calçada?

A mão sempre estendida, costumeira,

sorriso feito flor desabrochada.


Eu com todo orgulho então direi:

Eu venho de um lugar tão requintado

que lá qualquer pessoa é feito rei.


Eu venho de uma terra tão bonita,

que um dia Deus criou emocionado

e os homens batizaram de Mesquita.

segunda-feira, 1 de julho de 2024

Rua dos sonhos


À tardinha, na minha rua,

a vida é de qualidade;

tem gente vivendo a vida

com tanta simplicidade.

Meninas brincam de roda,

moleques jogam pião,

há um grupo no portão,

falando de futebol.

E três ou quatro meninas,

queimadas de muito sol,

falam da vida, da sorte,

da esperança, da alegria,

a matemática mata,

mas que inferno,

e a geografia?

E o pipoqueiro aparece

lá no princípio da rua.

O sol cochila, adormece,

é cheia a fase da lua.

E a lua linda prateia

a rua, serenamente.

Quem dera que a lua cheia

desse filhotes pra gente

e o pipoqueiro persistente

com a roupa branca, engomada,

e a meninada que assiste

desponta em flor na calçada

Belém, blém, blém, blém, belém

Pipoca doce, salgada.

E a velhinha faz crochê

em uma cadeira e balança

dá gosto da gente ver

a habilidade na trança,

Borda a saudade de verde

pra confundir com esperança.


O rio passa sereno

sob a ponte de madeira,

na vida a pressa é um veneno,

vai passar a vida inteira.

É necessário prudência

na queda da cachoeira.


Na minha rua se encerra

uma ternura invejada,

mas minha rua é de terra,

de chão batido, coitada!

Coitada, mas que coitada?

Mas que coitada, que nada.

A minha rua é encantada,

a minha rua tem vida,

rosas, jardins, margaridas

desabrocham nos quintais;

mangas, caquis, araçás,

goiabas brancas, vermelhas,

chão batido, cor de telha.


A minha rua é vermelha

tal qual sangue que corre,

tal qual tarde que morre,

tal qual vinho que escorre,

tal qual tarde que morre

depois de um dia de sol.

O sol que deixa vermelho

o céu de todo arrebol.

Mas quando enfim anoitece

e a rua é toda sossego,

entre os murmúrios de prece

há sussurros de chamego.

Depois a rua adormece.


É paz em cada aconchego.

E a paz com tudo realça

e surge um anjo encantado

cobrindo a rua descalça

com um manto todo estrelado.