quarta-feira, 10 de junho de 2026

A feira


O burburinho começa

no meio da madrugada;

os homens andam depressa,

mercadoria espalhada,

cavaletes, tabuleiros.

Estica a lona, ô José,

Aperta o nó, companheiro.”

Seu Jorginho tem café

fresquinho, saiu agora.”

ai meu dedo, seu mané!

Quase arranca o dedo fora

ai que dor!”

Preste atenção

puxe a lona pra direita

faça um laço no cordão

puxa, estica, aperta, afeita”

e segue a luta renhida

e a feira vai se formando

e uma garra comovida

vai crescendo, vai tocando

o suor pinga na testa.

Ai meu Deus, me dê coragem

quanto tempo ainda me resta

pra tocar essa engrenagem

madrugada, chuva fina,

vento forte, cerração,

nada foge da rotina

tudo igual na profissão.

Mas a feira está formada

Legumes, frutas, verduras,

flores lindas perfumadas,

queijos, doces, rapadura,

camisolas, camisões,

bugigangas, churrasquinho,

Peixe fresco, camarões,

há de tudo no caminho,

Leitão assado, chouriço

pipoca deliciosa.

Faz o moço um reboliço

com a balança duvidosa

Laranja lima, seleta

Apregoa o “seu Manoel”

na minha rua – completa

até meu limão é mel.

A laranja é mesmo doce?”

Ô menina! É uma beleza!

É doce como se fosse

beijo doce de princesa.”

Se é doce então vale a pena.

Duas dúzias, por favor.”

De beijos, linda morena?”

De laranja, meu senhor.”

Seu Manuel ri desmedido

não deveria brincar.

De certo foi atrevido,

tenta se justificar.

Me desculpe a brincadeira

por favor, não leve a mal.

São trinta anos de feira

é preciso bom astral.”

Faz o menino escarcéu

de banca em banca, engraçado:

Olha o quibe, olha o pastel

olha o suco bem gelado.”

O velhinho da algibeira

tira um sorriso ancestral

Vai limão, é de primeira?

São cinco por um real.”

A feira é todo esse encanto,

a gente encontra carinho,

Gente boa divertida,

Alegria costumeira.

Embora a luta renhida,

sempre cabe brincadeira,

e nesse astral segue a vida

e nesse astral vive a feira.

domingo, 10 de maio de 2026

Baixada



Baixada

com toda essa timidez

tu és bonita demais.

Levada? Fama talvez.

Levada ou não tanto faz.

Baixada,

pintam maldade,

miséria, dor, agonia,

mas não a felicidade

que mora no dia a dia.

A bola rola um colosso,

feijoada no quintal,

terra de velho, de moço,

de garra fenomenal.

O boteco do “Seu Zé”

tem uma pinga de jeito,

cura mágoa, dor no pé,

as “ziqueziras” do peito,

ingratidão de mulher,

um trago só e tá feito.

Salta a cerveja gelada,

trás o copo para o Adauto,

hoje a conta ta zerada

põe lá no prego mais alto,

e uma conversa afiada

e a roda cresce num salto.

O trem que corta a Baixada

trás pendurada a alegria

ao som de uma batucada,

samba, suor, poesia;

se a vida for complicada

sorrisos têm por magia.

Minha Baixada é assim,

há um otimismo sem fim

dobrando as mágoas de alguém

e na cabeça a noção:

o sol que doura a mansão

doura o casebre também.

Nossa Baixada é assim,

acordes de um bandolim

entram na alma da gente

e um violão displicente

nos dedos de um aprendiz

desafina, pedem bis

na ânsia de incentivar,

alguém murmura baixinho

uma canção de ninar.

De algum lugar

vem um cheiro,

um cheiro bom de tempero

que toma conta do ar.

Essa é a Baixada da gente,

Um jeito bom de viver,

se há humildade aparente

há uma riqueza de ser.

Baixada quem te conhece

sabe da tua candura,

sabe da tua ternura,

doçura de lambuzar,

os bouguevilles debruçam

nos muros de separar,

E as bananeiras arcadas,

goiabeiras carregadas

mangas, caquis, araçás.

Ainda se encontram faceiras

cana caiana, touceiras

docinhas pelos quintais.

Quando se fala em Baixada

tem muita gente emproada

que às vezes torce o nariz.

Nossa Baixada é decente

É terra, é berço da gente

que luta, mas é feliz.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Sabes?


Sabes de que

que eu tenho saudade?

Do jeito tão doce

que olhavas para mim,

aqueles sorrisos

por tudo, por nada,

a vida encantada

eu julgava sem fim.

Sabes de que

que eu tenho saudade?

Da cumplicidade

e o amor que existiam.

Eu era metade,

você a metade

e as duas metades

num só se fundiam.

Sabes de que

que eu tenho saudade?

do beijo, Ah! o beijo

que a gente se dava

e se demorava

alheio ao redor.

O mundo era nosso,

um mundo maior,

cabiam meus sonhos

e eram bastantes,

cabiam teus sonhos

demais fascinantes

e tantos projetos,

roteiros demais.

Sabes de que

que eu tenho saudade?

da paz,

a paz que existia

nos nossos abraços,

a gente prendia

a ternura nos laços

e o tempo era escasso

pra tanto se dar.

Sabes de que

que eu tenho saudade?

Eu tenho saudade

do tempo de ousar.

Me dar por inteiro

sem me machucar

Eu tenho saudade

de olhar nos teus olhos

sem medo de olhar.

quarta-feira, 18 de março de 2026

João Prado homenageado


 A edição de março do Garimpo - Mensário de Poesia e Espiritualidade prestou uma bela homenagem ao poeta João Prado. Poetas de várias partes do Brasil escreveram versos dedicados ao Poeta do Otimismo, compondo assim uma verdadeira carta de amor e gratidão pelo seu trabalho.

O Garimpo, cujo título foi inspirado no segundo livro de João Prado, é um boletim poético virtual publicado desde 2016. A edição dedicada a João Prado pode ser baixada gratuitamente CLICANDO AQUI.

terça-feira, 10 de março de 2026

Reconhecimento


Era um mendigo velho,

bem velhinho,

Os olhos muito azuis,

corpo magrinho,

As mãos tão enrugadas

coitadinho.

As faces castigadas

sem carinho,

as vestes tão surradas,

desalinho,

futuro quase nada,

miudinho.

A fé inabalada

e tão sozinho,

sentou-se sob a ponte

e sobre o chão

juntou toda ternura

e devoção.

E então com muita fé

ergueu sua latinha

de café

e meio pão

e agradeceu a Deus

a refeição.

domingo, 1 de setembro de 2024

Depoimento de tragédia urbana


Aí ela pegou a faca

eu vi, seu moço

e ZÁS, com um golpe frio

e do pescoço

o sangue fez jorrar.

De nada valeu da morta

a resistência,

pois ela demonstrava ter

experiência no jeito de matar.

Depois então

da água que fervia no fogão

sobre o corpo inerte derramou.

Aí, ato contínuo

friamente

foi-lhe tirando as roupas

bruscamente

até que o corpo inteiro

desnudou.

E a cabeça fez-se decepada,

as coxas também foram separadas

e o tronco num só golpe

aberto ao meio.

Picou-lhe em pedacinhos,

disparate.

Pôs sal, pôs cebolinha,

pôs tomate,

depois de lhe arrancar

todo o recheio.

Havia uma emoção

nos olhos dela

quando temperou toda a galinha

e pôs pra cozinhar

numa panela.

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Origem


E se me perguntarem nas andanças

onde eu aprendi versos de amor;

Onde eu encontrei tanta esperança

E em que caminho afinal achei a flor;


E se me perguntarem aonde eu for

se existe céu assim tão estrelado

Ou apenas é ilusão de um sonhador

que anda vez em quando tresloucado;


E se me perguntarem onde a lua

brilha com tamanha intensidade.

E onde eu encontrei a tal da rua

na qual reside o amor, felicidade;


E onde é a terra promissora

de gente com amor pelo torrão;

e a cidadezinha encantadora

da qual se for preciso eu beijo o chão;


E se me perguntarem em que praça

a gente ainda encontra poesia;

E onde a lua brinca, faz pirraça,

na ânsia de ficar por todo o dia;


Onde é a terra hospitaleira

de gente fim de tarde na calçada?

A mão sempre estendida, costumeira,

sorriso feito flor desabrochada.


Eu com todo orgulho então direi:

Eu venho de um lugar tão requintado

que lá qualquer pessoa é feito rei.


Eu venho de uma terra tão bonita,

que um dia Deus criou emocionado

e os homens batizaram de Mesquita.