sábado, 4 de agosto de 2018

Desengano



Te assustas com as rugas
do meu rosto?
E com os meus cabelos brancos de repente?
Ah! Meu amigo,
O estilete do desgosto
foi me definhando interiormente
manso, sorrateiro, lentamente.
E se eu passei pra ti um lado oposto,
enganei a mim, principalmente.
É certo que  excedi-me
no meu zelo
na ânsia de passar
perseverança.
Pintei por algum tempo
os meus cabelos.
Sorrisos? Os deixei
por segurança.
Decerto deveria removê-los,
mas sempre uma centelha
de esperança
dizia para eu ir
lutar vencer
que um dia
ainda teria coisa boa
Meti-me numa escola de viver
e fui tocando enfim
minha canoa.
E a vida foi passando,
foi passando.
E o tempo foi doendo,
foi doendo.
E os meus cabelos
foram prateando
e os sonhos um a um
envelhecendo.
E me perguntarás:
O que se passa?
Que dor toma-me o peito
e me devora?
Que mal, que agonia,
que desgraça,
ocupa-me a alma
e sem demora
me liquidará o corpo inteiro?
Ou falta-me dinheiro?
Às vezes uma crise
de repente
pega-nos de surpresa
infelizmente.
Não, meu amigo
nenhuma enfermidade
me angustia,
nem falta-me dinheiro,
dou meu jeito.
O salário
E uma certa economia
deixa-me deveras satisfeito.
A coisa que afinal
me asfixia
são as mágoas que carrego
aqui no peito.
São tantas atitudes
tão vazias
mesquinhas demais
pro meu conceito.
São mágoas, muitas mágoas
com certeza
que corroem-me feito ácido
implacável.
Mas se a vida
deu-se ao trato, por fineza
de sensível me fazer
incontestável,
aos poucos meu amigo
eu viro a mesa
pois a sede de viver
é insaciável.
João Prado

terça-feira, 26 de junho de 2018

A MÁQUINA



Na sala
a família está toda
reunida
assistindo ao programa
de televisão.
Um silêncio de morte
nas pessoas,
uma total atenção
à formidável novela
da televisão.
Alguém tem sede
mas não ousa reclamar.
Alguém tem fome...
mas, primeiro a conclusão
da formidável novela
da televisão.
Um menino de três
ou quatro anos
aproximadamente
entra nervoso
pisando inclemente
o sinteco lustroso.
Começou a falar porém
não prosseguiu
sua mãe o fez parar
com um psiu,
enquanto o pai aborrecido
reclamava o silêncio
interrompido,
e a irmã protestava
 indignada:
Não se vê mais um programa
sossegada
e pra finalizar
logo a questão
aumentou mais o volume
da televisão.
O menino
sem outra alternativa
ficou fitando
as cores vivas das figuras
a perguntar-se
como as criaturas,
como seus pais
e seus irmãos enfim
absorviam-se assim
diante das figuras
abstratas da tevê.
Porque papai do céu,
porque?
se a ternura da gente
não morreu
essa tevê que não sorri,
porque?
é tão mais importante
do que eu?
Porque papai do céu,
porque?
depois que essa tevê
aqui chegou
mamãe já não falou
mais de você,
papai contos de fada
não contou?
Porque papai do céu,
porque?
Que você me desculpe
essa franqueza
mas diante da frieza
aqui de casa
algo está errado
com certeza.
E o capítulo chega
ao seu final.
E um comenta: Queria reação
o outro diz que não gostou
da conclusão
e um fala daqui,
e o outro fala
e acendem-se
as lâmpadas da sala
e só então
foi que viram
no dedo do menino
um corte pequenino
de onde o sangue a pingar
manchava o chão.
Meu Deus, grita a mãe
desesperada
e salta da poltrona
apavorada
e o pai se junta
e a irmã correndo
um punhado de remédios
vem trazendo
a socorrer
a mãozinha acidentada.
O menino, depois do curativo
de gaze o dedo gordo
e os olhos vivos
num princípio de choro
comentou:
Tem certas coisas
que eu não compreendo,
a dor do meu dedinho
já passou,
mas uma dor bem aqui
ficou doendo.


segunda-feira, 28 de maio de 2018

NA BOCA DO CAIXA



Na boca do caixa
o dinheiro não deu.
Retoma arroz
volta feijão
que rei sou eu?
O salário sequer
mata-me a fome.
Na carteira de trabalho
tem meu nome.
O açúcar eu levo
pra adoçar a vida.
O sal retoma,
temperar o que?
A vela eu levo
pra ter luz acesa.
O pão preciso
pra ficar na mesa
pra por na gente
a sensação de ter.
Levo o fubá
que é pra mexer
com o pranto.
É um tanto amargo
mas careço tanto
mingau qualquer
para sobreviver.
Volta a manteiga
da dor de barriga,
é tanto luxo
volta o leite em pó.
Eu tenho um nó
que me sufoca o peito
e o nó não deixa
eu meditar direito
porque é que o pobre
é sofrimento só.
Levo o biscoito
que o menino espera
e quem espera
deve conquistar,
 se não machuca
aqui por dentro,
tudo tal qual comigo
que não mais me iludo
levo biscoito
que é pra sustentar.
Levo o sabão
que é pra lavar-me a alma
não tira nódoas
da desesperança
porém quem sabe
faz revigorar.
A gente vive
acalentando a calma
a fé malvada
que jamais se cansa
de crer que o amargo
Vai se adocicar.
Levo a cachaça
pra tomar um porre
pra ver se acaso
essa tristeza morre
e um riso bêbado
eu possa inventar.
Volta a cachaça
que a cachaça dobra
e essa tristeza
que me dói de sobra
se eu ver dobrado
não vou suportar.
Preocupa não, seu moço
o resto eu levo,
meu fardo é grande
cabe quantidade.
levo tristeza,
levo uma vontade.
Melancolia tem de qualidade,
eu só lamento
não levar nas compras
sequer cem gramas de felicidade.


segunda-feira, 26 de março de 2018

Limite



E agora seu moço
que você já chegou
lá no fundo do poço
no finzinho da estrada?
Mas que fundo que nada:
o fundo é mais fundo,
a dor é mais forte.
Tem gosto, tem cheiro
tempero da morte.
Você pensa que é o fundo,
e ainda que fosse...
Faz de conta
que tudo na vida acabou-se
não há sol, não há céu,
não há mais horizonte.
Não há brilho nos olhos
nem água na fonte
nada mais pra buscar,
nada mais pra cair.
E daí? E daí?
Serve o fundo de base
pra gente subir.
Serve o fundo de apoio
e o impulso há de vir;
vez em quando é preciso
de um tombo lição.
Serve o fundo de estágio
para reflexão.
Você vai cabisbaixo
distante, sem fala.
Você vai se arrastando
no bloco da vida.

Convida a alegria
pra dar uma pala,
convida a esperança
para vir colorida,
dispensa essa angústia
demais caprichosa,
e diz ao otimismo
para vir, sem cuidado.
Convida a ternura
para um dedo de prosa
e avisa a tristeza
“ingresso esgotado!”
Mas levanta esse astral.
Quando a vida da gente
se torna indecisa
é que a gente precisa
fazer carnaval.
E lutar, e vencer,
e provar
que é gigante.
Se é preciso crescer,
que se cresça o bastante
pra trazer as estrelas
na palma da mão,
a cabeça no céu
e os pés firmes no chão.
É possível, seu moço,
basta revolução.
Se já deu pra saber
tua estrela caída,
a receita pra vida
é determinação.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

CARIDADE



E a menina
com os olhos em brasa
pediu-me uma esmola.
Na idade de casa,
na idade da escola.
Da cama quentinha,
bonecas e dengos
pediu-me uma esmola,
e eu disse que não.
Também tanta gente
suplica uma esmola,
também tanta gente
responde que não.
Mas dei alguns passos,
voltei à razão.
Será que quisera
comprar ilusão
quem sabe um sorriso,
quem sabe um bombom,
quem sabe esperança,
pipoca, um pão,
quem sabe um sorvete?
E eu disse que não.
Voltei e a encontrei
no mesmo lugar.
A mão estendida
a gente a passar
e na idade da escola,
me dá uma esmola.
Senti a emoção
me tomar por inteiro
e uma lágrima quente
sangrar-me, doída.
Eu vi a esperança
de mão estendidas
pra sobreviver.
A falta de tempo
é que impede a bondade?
É fora de moda
a solidariedade
a pressa é desculpa
pra gente não ver.
Estampava a menina
o retrato da fome,
vestido sujinho,
sem nada nos pés.
Qual é o seu nome, menina
quem és?
Que idade tu tens?
Não sei, tenho dez
ou quem sabe, duzentos.
Passei pela vida
por muitos tormentos,
por tanto chorei
que a idade não conta
e meu tempo eu não sei.
Brotaram-lhe gotas
nos olhos azuis,
o vermelho dos olhos
eram réstias de luz
do incêndio no peito,
fogueira da fé.
Na idade da escola,
me dá uma esmola
me diz como é.
Me ensina a proeza
que existe pra ver e saber
da beleza
de sobreviver.
Bebi do seu pranto,
vivi do seu tédio.
Quisera um sorriso
lhe dar por remédio,
não dá pra sorrir
enquanto um alguém
suplicar uma esmola
enquanto um alguém
não tiver onde ir.
Quem trouxe teu prato?
Não sei foram tantos.
Eu sei, eu garanto
fomos todos nós.
Os braços cruzados
os tempos minguados
tão juntos e a sós,
cavamos o abismo
com orgulho e egoísmo
do muito de nós.
Me dá tuas mão, menina
levanta.
No peito da gente
a certeza não canta
nem grita a grandeza
se a gente não quer.
Me dá tuas mãos
e inventa uma farra
e junta esta festa
com toda esta garra
e faça-as de escudo
pra dor que vier.
Me dá tuas mãos
pra girar corrupio,
na ponta do pé
pega a estrela madura,
qual fruta brilhando
na beira do rio
que a gente projeta
se lança e segura.
Me dá tuas mãos
tão pequenininhas
elas vivem um tempo
de colar figurinhas,
de pôr mil anéis.
Abrir os bombons,
distorcer os papéis
curtir os sabores,
pintar os momentos,
colorir pensamentos
de todas as cores.
Embale teus sonhos,
embale as bonecas.
Não cante, menina
canções de ninar.
Os homens já dormem
terão que acordar.
A idade que tens
é de quem pinta e borda.
desata essa forca
estica essa corda
permita se dar.
A corda da forca
é também pra pular.
A menina fitou-me
olhar de criança
parece que o pranto
regou-lhe a esperança
e acabou com o incêndio
que havia no peito.
Arejou os cabelos,
na roupa deu jeito,
com as costas da mão
enxugou sua mágoa
e saiu saltitando
pelas poças d’água.


segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

BAZAR


Vende-se um coração
por qualquer preço.
Uma alma pelo avesso
e uma imensa solidão.
Um nó para ser posto
na garganta nos momentos de aflição.
Um sorriso pouco usado
e uns sonhos tão sonhados
que é preciso ter cuidados
ao levá-los, se não quebram,
é preciso muito jeito.
Vende-se um punhado
de esperança,
um brinquedo de criança
que não cabe mais no peito.
Vende-se uma audácia
pra quem luta
e uma dor pra quem escuta
quem ousa falar de amor.
Vende-se uma flor,
liquidação,
uma não 
amor perfeito
saudades,
nem sei direito
se são dúzias ou centenas.
Vendem-se uns tempos bonitos
e uma estrela no infinito
pouco brilho
e bem pequena.
Vendem-se mãos carinhosas
vontades, vendem-se rosas.
Vendem-se felicidades
pra por em dias de gala.
Só foi usada uma vez.
Vendem-se uns móveis de sala
de dois lugares, de três
apenas tomam-me espaço.
Vende-se um lindo caminho
só percorrido um pedaço.
Vendem-se beijos, abraços
Vendem-se tédios, fracassos
pequenos, pequenininhos
feito gotas de veneno
que matam devagarinho.
Vendem-se mágoas e mágoas
e uns olhos rasos d’água
algum tempo em promoção,
pague um e leve dois
com direito a vir depois
buscar a decepção.
Vendem-se tantas tristezas.
Vendem-se velas acesas
de um jantar que não se fez.
Vende-se um murro na mesa
muito bem dado uma vez.
Vende-se um tempo de espera.
Vende-se uma primavera
tão bonita de viver.
Vende-se inteira, metade
uma angústia de verdade
já prontinha pra doer.
Vende-se o bazar inteiro
vendo a quem chegar primeiro
toda essa quinquilharia,
parcelado, e de vantagem
vai levar uma alegria
inteirinha, na embalagem.
Aceito cartões de crédito
e vendo de um jeito inédito
de pagar quando quiser.
Eu só preciso, no entanto
que quem comprar
seque o pranto
nesses meus olhos, se houver.


João Prado