segunda-feira, 25 de março de 2019

Chico Gente



Ah! Chico, quanta ternura
Semeaste no caminho.
Lembrando a tua lisura,
A mansidão e o carinho,
Tem-se decerto a noção
Que aquele teu jeito manso,
Sereno, pequenininho,
Passava sempre a lição
Que a gente pode ser grande
Sem macular a razão;
Que a gente pode ser forte
E usar a força da gente
Em beneficio do irmão;
Que a gente pode ser meigo
Diante da ingratidão.
Ah! Chico, muito obrigado
Por teu exemplo de amor,
De fé, pelo teu legado,
Por teu comprometimento,
Por toda sabedoria,
Pelo teu encantamento,
Por toda tua poesia.
Com o teu ensinamento,
Com todo teu bom humor,
Com toda tua magia
Eu penso que a própria dor
Bebeu da tua alegria;
Por todo exemplo deixado
Ah! Chico, muito obrigado!


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

A guerra e o louco



Ah! O que ouço? São os canhões novamente!
Será que não param? Será que essa gente
Não tem piedade de matar inocentes
Chamando inimigo a quem jamais lhes fez mal?
São eles que voltam e os tiros revoltam
E através da vidraça eu olho a desgraça
Da guerra que encerra a paz afinal.
São corpos tombados, são corpos sem vida,
É a gente que morre, é a gente esquecida,
É a gente que esquece de Deus pelas terras,
É a gente, é a guerra, é a guerra, é a guerra.
Quantas vidas se esvão numa batalha,
A própria terra se estremece, se esfrangalha
Ao deixar por tanto sangue se manchar.
São soldados que na ânsia da vitória,
Enlevados pela conquista de uma glória,
Abandonaram tudo, a família, o próprio lar.
Mas a guerra é pra forte, é pra homem, é pra gente.
A guerra é bravura de gente valente.
A guerra é sublime, a guerra é bonita,
A guerra é terror, a guerra é maldita,
Aniquila, orfandeia, mutila, assassina.
Mas a guerra dá nome, eu também quero ir
Que me importa que eu morra, que eu perca um braço?
É mais vergonhoso aceitar o fracasso
Que ficar na lembrança de alguém como herói.
João Prado
Do livro Castelo de Ilusões

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

O CAIS


Você partiu de mim
como o navio se afasta do cais
e cada vez mais foi se afastando,
se afastando, se afastando.
E foi levando a festa,
e foi levando a paz,
foi carregando
o riso, a esperança
e tudo mais
pra talvez, quem sabe até infelizmente,
descarregar sorrindo noutro cais.
 
Você partiu de mim
feito o navio,
e como é melancólico, meu Deus,
o cais vazio.
 
Eu sou o cais.
Há um estoque de saudade
num canto envelhecendo,
morrendo comigo
ou renascendo
a cada minuto em vão
de ansiedade.
 
Há um punhado de lágrimas
cristalinas,
sofridas,
de verdade,
remetidas da região
onde proliferam o amor
e a desilusão.
 
Eu sou o cais
que assistiu inerte a sua partida
sofrida, dolorida,
sem gritar, sem lhe implorar,
sem tentar lhe segurar com as amarras.
Eu sou o cais
inerte ao canto triste das cigarras
e triste ao canto alegre dos pardais.
Eu sou o cais.
Eu sou o cais.
Eu sou o cais que quisera lhe gritar
para não ir,
para pensar,
para medir,
pra meditar
que não era você somente que partia,
mas que era a minha metade
que se ia.
Eu nos sabia unidos num só corpo,
coração num só,
cérebro num só,
força, fé e ansiedade
numa só.
Eu era um cais navio,
metade mais metade,
e com um nó
que fez do peito em festa
de repente
se explodir num pranto,
me fez um cais vazio
feito encanto.
Eu sou o cais
à espera do navio que partiu,
que fugiu.
Que seguiu por outros mares
só a esmo.
Por que singrar os mares procurando
a festa que está dentro
de nós mesmos?
Eu quero que tu voltes,
que traga seu sorriso, sua festa,
pois dentro desse peito ainda me resta
uma festa somente adormecida.
Traz o seu sorriso para a festa
e assim eu farei festa dessa vida.
A minha festa vai desconsolada
enquanto de saudade andar vestida.
Eu quero que tu voltes
pra te falar das ondas boas
que vieram,
das ondas más também,
e por que não?
Pra te falar das noites vagarosas
que eu andei metido na prisão
da dor,
desse vazio dessa hora,
dessa irremediável solidão.
Eu quero que tu voltes sem demora,
porque eu tenho um punhado de estrelas
nessa mão,
e se uma estrela basta pra quem chora,
olha como eu quero essa versão.
 
Eu quero que tu voltes
pra te prender enfim com as amarras.
E então verei a vida gargalhando
até no canto das cigarras.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Protesto



Seu moço me dá licença
pra falar, que a vez é minha.
Meu nome é povo cansado
e ando meio danado
porque a fome se avizinha
e não tem nenhum letrado,
não tem um capacitado,
não tem um doutor formado
pra botar o trem na linha.
Eu tenho uma filha grande
e outra pequenininha,
tremem de frio no inverno,
comem feijão com farinha,
ovo frito dá pra dois,
vez em quando tem arroz,
vez por mês comem galinha
quando dá pra extravagância.
No peito eu tinha esperança,
por pouco não caducou;
já cansei de suplicar
pro Deus, Nosso Senhor,
porém na minha carteira
de trabalho, a vida inteira
não foi Deus que autografou;
Deus fala de amor, bondade,
ensina fraternidade
mas tem outra metade
que depende dos doutor,
que depende dos “sinhô”,
depende das excelências
que me pedem paciência,
paciente até que sou.
Seu doutor, nas minhas veias
não corre sangue vermelho;
meu sangue é verde e amarelo
e se baterem o martelo
“quanto dão pelo país”
eu dou a vida doutor,
dou a vida sim senhor.
E morro de tanto amor
e faço mais do que fiz
até se preciso for,
pois doutor eu sou raiz.
Povo é a força pela dor
que ainda espera ser feliz
e se alguém sonha com flor
que cuide dessa raiz.
Eu tenho nas minhas mãos
medalhas que conquistei
no concreto que virei,
no aço que temperei,
no volante que girei
levando a festa na estrada.
No tronco que derrubei,
recebendo um quase nada;
na cana que já ceifei,
no feijão que temperei,
no remédio que inventei,
nas lições que eu já ensinei,
nos trigos que semeei,
no café que debulhei,
nas peças que já forjei,
no pão que já amassei
despertando a madrugada.
Eu tenho nas minhas mãos
medalhas do meu trabalho.
O suor pinga do rosto
que estanca se bate o malho
pra comer, ir embora.
E o peito por dentro chora
pelo aluguel atrasado,
pelo corpo esfarrapado,
pelo querer desgastado.
O dinheirinho que ganho
pra pagar tudo no mês
dá pra garrafa de cana,
whisky do seu bacana,
que consome de uma vez
num bate papo qualquer
onde falam de mulher,
de ir na Europa de novo...
Só não comentam do povo,
povo tem ocasião.
“O povo vai se lembrado
quando for aproximado
o período da eleição.”
E o povo sempre calado,
um futebol bem jogado,
um samba bem caprichado,
a cerveja e o carnaval,
e o pobre nem se dá conta
como é que a vida vai mal.
Mas se dá conta doutor
o povo está se cansando,
o povo está se agitando,
o povo está esperando,
ainda está acreditando
que quem está na direção
mude a marcha, bote freio,
que dirija sem receio,
sem medo de reação.
Comece tudo de novo.
Puxe a espada do seu seio,
grite: “agora é a vez do povo”
antes que o povo faminto,
cansado das excelências,
das vergonhas,
incoerências,
das injustiças,
indecências,
grite: “agora a vez é minha”
e parta pra independência
com as facas da cozinha.


segunda-feira, 26 de novembro de 2018

E agora?



E agora, José?
não há mais sorriso
e o sonho acabou,
e uma estrela na terra
afinal se apagou.

De repente um doído
semblante de paz.
e agora, José?
José não há mais.

Quem fará os bercinhos
de pinho de riga
e a cadeira bonita
de jacarandá?
O baú, a gamela,
o armário e uma figa
com o mesmo carinho,
e amor quem fará?

Quem trará guloseimas
“Cantina Sorrento”
e as maçãs embrulhadas
de um jeito teu só
a expressão tão incrível
de contentamento
do menino feliz
ao dançar um forró.
E agora, José?
que deixaste a carcaça
e que o tempo de dor
já ficou para trás
Parecias, José
uma velha barcaça
amarrada, ancorada
na beira do cais.

E não foi teu feitio
José, esse jeito
às pedras jogado
ao cais sem noção.
Tu que tinhas da vida
de certo o conceito
que é preciso viver
e curtir a emoção

Mas a imagem que fica,
José, entre nós
é a que sempre passaste
no ano após ano
a de um barco bonito,
gigante, veloz,
sorrindo, vivendo,
rasgando o oceano.

Vai ficar na memória
o teu jeito marcante.
Ah! Esse jeito mineiro
que falta nos faz.
Mas agora, José,
até um instante,
até logo, até breve,
até já, até mais.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Um adeus pra quem fica


Meu barraco,
aqui eu estou me despedindo,
nem sei como pôde acontecer
como foi possível ter-se findo
essa alegria
constante de viver.
Meu barraco,
agora eu vou embora,
ganhamos um apartamento
na cidade.
Dizem que lá tem mais comodidade
tem água com fartura
e a pintura
é linda realmente.
Tem chuveiro de água fria.
de água quente,
tem luz, tem campainha
e a cozinha é toda de azulejo.
Mas barraco, eu não vejo
porque mudar daqui.
Vou por imposição
de muita gente
que diz que é incontinente,
que há uma necessidade
de partir.
Por aqui vai passar
uma larga avenida.
É barraco, é a vida.
Eu já sei
que deves ter percebido
que hás de ser destruído,
mas não ligas barraco,
vão destruir tem corpo,
mas não tua saudade
e a gente vive, barraco,
a eternidade
se viveu e marcou;
e tu ficaste marcado
na verdade
que um dia te mostrou.
Eu quisera barraco
continuar daqui
vendo o mundo de cima,
com bastante humildade,
mas me mandaram descer
e viver na cidade.
Adeus, meu barraco,
decerto estás fraco
e a fraqueza é o prenúncio
do fim da existência,
mas não peças clemência,
sabes bem como é:
morrer com decência
é findar-se de pé.
Já vou, meu barraco,
já vou pra cidade
e decerto a saudade
há de me cruciar,
eu sei, meu barraco,
que é dura a verdade,
dá até pra chorar.
Mas não temas a morte,
enfrenta o suplício,
não invejes a sorte
do grande edifício
onde eu vou me alojar.
Tu não tinhas com quê,
mas gostavas de dar,
e na cidade, barraco,
é comum dar-se as mãos
pra poder se mostrar
e barraco, barraco,
no teu lampião,
no teu zinco furado,
na beleza do chão
tão batido e cansado,
eu achei poesia,
ternura,
verdade
que eu sei não vou ter
se viver na cidade.
Não lamentes, barraco,
teu destino cruel.
Tu viveste bastante
bem junto do céu,
enfrentando problemas,
nem água, nem luz;
e no entanto barraco
quanto samba eu compus.
Quantos beijos já dei,
quantas vezes fiz cruz
e feliz me deitei.
Quantas vezes, barraco,
eu chegava cansado
e os moleques falavam
da escola do Estado.
Um passou de lição,
outro trouxe anotado
uma relação
de livros gozados
de inglês, de francês
que eu devia comprar,
mas sem ter pra pagar,
Tu te lembras, barraco?
Tu viveste essa vida,
tu sofreste comigo
essa estória comprida
e estiveste de pé
como o bom companheiro,
só por isso, barraco,
eu não findo primeiro.
Já vou, meu barraco,
não chores, barraco,
sorrias, barraco,
tu és mais importante.
O edifício
por mais elegante
e por mais requintado
não tem um tijolo francês
nem cimento importado,
e tu tens, meu barraco,
pedaços do mundo,
remendo que aos cacos
juntei pra compor,
seja lá como for:
maçãs argentinas,
whisky escocês
e por cima da porta
bacalhau norueguês,
português.
Foste feito aos pedaços,
pedaços do mundo
que andou pelos braços
dos mares profundos
nos grandes navios.
Pedaços, barraco,
dos homens doentios.
Pedaços de gente
de mil continentes
(Eu sei lá se tem mil!),
mas pedaços do mundo
que enfim é barraco
e é meu no Brasil.
Sorrias, barraco,
continuas vivendo
aqui dentro do peito
mesmo quando for feito
onde estás atualmente
um trabalho imponente,
uma estrada gigante,
e uma estrada gigante
não é tão gigante
pra mim o quanto és,
mas adeus, meu barraco,
a gente não pode
fugir do revés.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Os vasos quebrados



No vaso quebrado
julgado imperfeito
havia uma rosa
com tanta fragrância
que nem era notado
o pequeno defeito.
O vaso quebrado
menor importância;
O importante era a rosa
bonita, cheirosa,
surgida no vaso
com tanto vigor.
E o vaso se dava
e feliz abrigava-a
zeloso da flor.
Os vasos da vida,
quebrados ou não,
todos têm a missão
de se dar por amor.
E os vasos quebrados
às vezes deixados
ao léu pelo mundo
cultivam as rosas
bonitas, cheirosas,
lá dentro, no fundo.