O poeta João Prado recebeu a Medalha José Montes Paixão, uma comenda concedida pela Prefeitura Municipal de Mesquita (RJ), contemplando pessoas de destacada e reconhecida influência no desenvolvimento social da cidade.
Dedicado à obra do Poeta do Otimismo, trazendo textos seus e informações sobre apresentações.
domingo, 19 de junho de 2022
segunda-feira, 2 de maio de 2022
Eu preciso mudar
Eu preciso mudar
Não mudar de endereço
Reduzir minha zanga
Crescer o meu apreço
Dizer o que eu
Gostaria de ouvir.
Eu preciso mudar
Eu preciso existir
Controlando a emoção
E ao o invés de uma espada
Uma rosa na mão.
Eu preciso dizer de verdade:
Estou com saudade
Apareça, vem cá
Me dá um abraço
Sujinho, rasgado
Um abraço apertado
Do jeito que dá.
Eu preciso mudar
Reduzir as centelhas
Invejar as abelhas
Com o mel do meu peito.
Eu preciso mudar
Rever os meus conceitos
Eu preciso buscar
Essa paz das ovelhas
É urgente tirar
A fuligem das telhas
João Prado
25/04/22
terça-feira, 30 de novembro de 2021
PRONTIDÃO
Dorme menino, dorme,
enquanto dormes no berço
tua mãe dedilha o terço
pedindo pra Deus olhar
“Que meu menino, Senhor,
cresça encharcado de amor
numa ternura sem par.”
Dorme menino, dorme,
enquanto o berço balança,
duas gotas de esperança
rolam com encantamento,
pingam na fralda macia
e Deus compõe poesia
de tão bonito o momento.
Dorme menino, dorme,
das dores do mundo alheio,
na fome tu tens o seio.
portanto, resta sonhar.
Se principias um choro
os anjos juntam-se em coro
numa canção de ninar.
Dorme menino, dorme,
Rostinho terno na fronha.
A tua mãe também sonha
um sonho demais ousado.
Será médico, dentista,
Será professor, artista,
engenheiro, advogado.
Dorme menino, dorme,
que a noite flui vagarosa
e a mãezinha cuidadosa
carece de cochilar.
É que o sol devagarinho
aos poucos deixa o bercinho
pro dia recomeçar.
Dorme menino, dorme.
terça-feira, 16 de novembro de 2021
Agradecimento
Senhor, muito obrigado
pelas flores que deixaste
no caminho
onde eu passo todo dia.
Pelas pétalas no chão
perfumadas, tão macias.
Ah! Senhor, a sensação de que
um tapete, por que não?
fôra posto onde eu seguia.
Pelo sol resplandecente
que surgiu nesta manhã
glorioso, comovente.
Ah! Senhor, muito obrigado,
Pela brisa no meu rosto;
Pela tarde de sol posto;
Pelo céu tão estrelado.
Senhor, muito obrigado.
E Senhor por cada amigo,
cada peito, cada abrigo.
Os que me telefonaram.
Os que vieram, me abraçaram.
Os colegas de trabalho.
Todos eles me ajudaram
a cumprir minha missão.
E Senhor, pela canção,
pela paz de cada irmão,
pelo sim e pelo não.
pela rosa ainda em botão,
pela água, pelo pão,
pelo dia abençoado.
Ah! Senhor muito obrigado.
Obrigado pelo ar
que sustenta minha vida;
pela fé fortalecida;
pela força dos meus braços.
Obrigado por meus passos.
Por meu lar, minha família.
Ah! Senhor, que maravilha!
Tenho tanto a agradecer
que às vezes na oração
ponho-me em reflexão.
O que fiz pra merecer?
Só Senhor, tua bondade,
tua generosidade
fazem-me compreender.
E Senhor muito obrigado
pela estória comovida,
pelo sonho acalentado,
pela estrada percorrida.
Obrigado pela vida!
Ah! Senhor, muito obrigado.
terça-feira, 2 de novembro de 2021
Seca
Seca, não chove
nem nada.
O sol causticante
crucia a moçada.
O gado emagrece
e os ossos lhe saltam
na pele cansada.
Os olhos no fundo,
Um mundo distante
Tão perto do mundo
Tão longe do nada.
Os pássaros voam
por outras paragens.
Os rios secaram.
E das verdes ramagens
às margens do rio
apenas restaram,
arcados de medo,
os galhos despidos
dos arvoredos.
É seca total.
O magro cachorro
parou de latir.
A vaca leiteira
morreu no curral.
É a vida vai mal.
A velha viola
ficou esquecida
na tosca parede.
E um monte de rede,
com sede da vida
de alguém que sonhava
e feliz se embalava
nos tempos de paz,
Jaz desolada num canto,
Ninguém sonha mais...
Seca, seca
não chove, nem nada,
e a estrada se perde
na vida empoeirada.
Os meninos definham
e a pobre Maria,
com o rosto marcado
de tanta agonia,
de tristeza e de dor,
ainda tem muito amor
para dar pra quem ama.
Chama o marido,
coitado, sofrido,
e murmura baixinho
com todo o carinho
e ternura na voz:
“Tem calma José
tem paciência José
que Deus lembra de nós.
Vem e reza um bocado
e conta pra Deus
que o sertão tá danado.
Fala José, explica José.
Quem sabe Ele escuta?
Fala com Ele José, dessa luta
que Ele vai ajudar.
Pede José,
mas pede do fundo
me ajuda a rezar.”
E José responde nada.
Fita o céu
calmo e profundo
e uma lágrima é rolada
e murmura num segundo
uma prece amargurada.
Toda a alma põe na prece
e José também se esquece
da desdita, da agonia.
Traz Maria pro seu peito
e acarinha-lhe de jeito.
Depois beija-lhe de gosto
tantas rugas no seu rosto.
Nasce um riso entre as agruras,
e as ternuras se prolongam
quase que infinitamente.
Eis, porém, que de repente
grossas nuvens se mostraram,
o sol se escondia,
os trovões rebimbavam
e a chuva caía.
A chuva caía, caía, caía.
A chuva caía na terra cansada
e até ressequida.
Na terra enjoada,
na terra sofrida.
A chuva caía, caía, caía
caía de graça.
Maria da Graça
Olha a roupa na corda!
Maria, depressa,
encoste a janela!
E um riso tão dela
se abre na face.
E a alegria renasce.
É a gente que corre.
É o tédio que morre.
É a chuva caindo
É a gente sorrindo.
Meu Deus! Como é lindo.
E tudo lá fora
parece contente,
E a gente tão gente,
tão simples, tão gente,
tão pura, tão gente,
tão pobre, tão gente,
de braços cansados,
tão magros, tão seus
dando graças a Deus.
terça-feira, 19 de outubro de 2021
Eu passageiro
O trem parou na estação
um defeito na sinalização
o impediu de prosseguir
por meia hora.
Droga! Tomara ir logo embora.
Um calor insuportável.
Um ar desagradável
de ânsia, de espera.
Que se dane a primavera!
Nada é bom
Quando a gente está ruim
O meu sinal também fechou
e assim
o meu mal humor
se acentuou.
Passada a meia hora,
e estando o trem então
já liberado,
um grupo apressado
de jovens e de velhos
entrou bem humorado.
Aproveitou a interdição
e fartou-se de docinhos,
guaranás e salgadinhos
no barzinho da estação
O trem partiu
e alguém sorriu.
“Ha! Ha!
Foi providencial esta parada.
Que delicia de cocada
no barzinho da estação.”
Droga! Eu perdi essa emoção.
E a viagem
foi de novo interrompida.
O trem parou numa estação
quase sem vida.
“Atenção, senhores passageiros,
pedimos por favor compreensão.
O trem aguardará
por dez minutos
na estação.
Este fato não costuma ser normal
mas houve uma avaria no sinal.”
Desci!
Tão sequioso de prazer,
comer, beber,
comer de empanturrar.
Na estação não tinha bar.
Que ódio, que revolta,
Danação.
Mas como não ter bar
numa estação.
Voltei e me sentei
no mesmo banco,
revoltado,
sem ação,
transfigurado,
até que o malogrado trem
foi liberado.
E o grupo, tão contente,
entrou esbaforido
novamente.
“Ha! Ha!
Foi providencial esta parada
Quantas fotografias de mãos dadas
tiramos no jardim.
E as flores, tantas rosas,
e o jasmim,
Num único botão
a se lançar,
bonito de sobrar.
E as violetas
surgindo em profusão.”
Droga!
Eu perdi essa emoção.
De novo põe-se o trem
em movimento
e na outra estação
outro lamento
depois da locução.
“Em virtude de defeito
na sinalização,
o trem
aguardará liberação.”
Não pude mais conter
minha explosão.
Essa não,
é preciso dar um jeito.
Isso é falta de respeito
ao cidadão.
Mas não vou me aborrecer
eu vou descer
e vou comer
de empanturrar.
Não tendo bar
curto o jardim.
Agora tudo é festa
é assim
eu vou tirar proveito
até do que não presta.
Mas não havia bar
e nem jardim.
Não havia nada.
A estação era só
uma parada.
E umas crianças maltrapilhas
sem berço e sem escola
estendiam as mãos
pedindo esmola
Mas que absurdo!
Agucei meu egoísmo,
será que não dá mais
para fazer turismo
sem ser importunado?
Voltei, mas muito mais
que revoltado.
E o grupo
talvez, sei lá, por ironia
entrou bem carregado
de alegria.
“Ah!
Foi providencial
esta parada.
Quantas crianças carentes,
pés no chão.
Eu dei esmolas, dei abraços,
dei sorrisos, dei a mão,
e nos olhos de cada um
vi gratidão.”
Droga!
Eu perdi essa emoção.
E o trem seguiu viagem
e eu muito emburrado
nem me dei conta
das imagens do serrado,
das montanhas
tão iguais e tão estranhas.
E o grupo embevecido
nas janelas.
“Olha quantas flores amarelas.
Olha um riacho.
Olha a cachoeira.
Ai, que borboleta
mais bonita.
É a primeira
que vejo nesta cor.
Neste azul.
Azul metalizado.”
E eu no meu interior
muito emburrado.
E o trem fez paradas
em sinais entre estações.
E o grupo
sempre achava razões
pra se encantar
E eu sem me encontrar.
E chegamos ao final
da trajetória.
Uma metrópole moderna
porém tão merencória.
Ao menos eu a via
desse jeito.
Embora tantas luzes,
tantas cores,
bares e tabernas,
tanto efeito,
vitrines coloridas,
tantas flores,
crianças tão felizes,
vi doutores,
e nada me encantou
nessa viajem.
Não fui útil, nem vivi,
perdi toda emoção.
Por favor meu senhor
uma passagem,
eu aguardo outro trem
lá na estação.
quarta-feira, 3 de março de 2021
Que eu leve amor
Se onde há ódio, Senhor,
Que eu leve amor,
Que eu leve na bagagem
Muito amor por onde eu for.
Um amor descomplicado
Sem senões, sem preconceito.
Um amor ainda imperfeito
Burilando no caminho,
Mas amor que eu sozinho
Necessito burilar.
Se onde há ódio, Senhor,
Que eu leve amor,
Onde há espinho, senhor,
Que eu levo a flor,
Mas a flor que eu for levar
É preciso ser colhida,
Necessário que essas mãos
Sejam muito merecidas
De colher para ofertar.
Onde haja ódio, Senhor,
Que eu leve amor,
Mas que eu tenha a noção
Que na vida a gente cresce,
Em amor se reconhece
A grandeza do perdão
E perdoa por amor
A ofensa e a ingratidão.
Onde há ódio, Senhor,
Que eu leve o encanto,
Mas que eu possa me encantar
E poder secar o pranto
De quem chora tanto, tanto,
Sem saber recomeçar.
Onde há ódio, Senhor,
Que eu leve amor,
que eu tenha um argumento
Bem guardado, cá no fundo,
E que eu sirva de instrumento
E falar com sentimento
Da doçura desse mundo.
Onde há ódio, Senhor,
Que eu esteja preparado
E levar do meu amor
E falar do teu legado
Nas andanças onde eu for.
Aí sim, onde houver ódio,
Que eu possa levar amor.
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