quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Uma carta pra São Pedro


Ao senhor São Pedro,

Saudações

Tendo em vista um mal estar nos dois pulmões, um cansaço nas pernas costumeiro, uma dor que me toma o corpo inteiro e um difícil pulsar do coração, cheguei à conclusão, sem vacilar, que o senhor anda querendo me levar. Terminou manha missão aqui na Terra, a minha trajetória aqui se encerra. E é sobre isto que eu pretendo lhe falar.

Sabe o que é São Pedro, não é que eu tenha medo de morrer, absolutamente! Mas francamente, não há necessidade por enquanto. Eu sei que morrer é só passar para o outro lado, no entanto não estou nem um pouco interessado.

Desculpe-me, me empolguei eu sei que quem sabe é o Senhor e também sei que o céu é verdadeira maravilha.

Mas não é por mim... Minha família, os amigos, os credores. Não são grandes valores, a um eu devo cem, devo à farmácia, à quitanda, o armazém, O IPTU devo também. A um agiota devo mil a uns três anos que, se não me engano, com os juros chega a cinco ou quase seis. E eu pretendo resgatar antes de ir para o outro lado, com a sua permissão.

Depois, ainda pretendo construir lá no cerrado um casarão, e o senhor sabe como é construção. É preciso muita fé e proteção.

Por isso eu pediria pro senhor, é claro, se eu for merecedor, se pudesse esticar uns trinta anos daria pra cumprir todos os meus planos.

Se for possível mais eu agradeço; a gente pede sempre com humildade e reconheço que com esse jeito seu, tanta bondade num tempo que é de bonificação, quem sabe surge alguma promoção: “No bom comportamento ganhe mais trinta por cento”...

De novo me excedi, não leve a mal, este sempre foi o meu normal, sempre brinquei, sempre sorri. Agora ando um pouco preocupado, dói-me aqui, dói-me ali, por todo o lado. Uma forte dor dentro do peito e os remédios não produzem mais efeito.

Por isso eu pediria pro senhor, não é por nada. Se caso eu for tanta gente vai ficar amargurada, vai ser tão expressiva a frustração que é preciso reverter a situação.

E o que vão chorar, barbaridade! Há um risco de inundar toda a cidade, defesa civil, calamidade, é melhor não. Me deixa vivo, esquece minha ficha lá no arquivo. Faz que nem repartição.

Depois, ainda tenho uns pecadinhos que preciso resgatar. Não fui mesquinho que mereça outro lugar, mas não fui santo e haja tempo pra mudar.

Sem mais, humildemente, na espera de total compreensão, sem outro particular firmo a presente.

Atenciosamente,


Ai, Meu coração!

Ôôô São Pedro! Por acaso o senhor não leu o meu pedido?


“Li, mas carimbei... INDEFERIDO !”



segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Recadinho


Meu filho,

não me reclames

por eu sempre questionar

teus caminhos, aonde ir.

Quanto à hora de chegar,

o meu jeito é inquirir

sobre as tuas companhias

e até minha ousadia

de querer bisbilhotar

teus segredos e paixões.

Tenho cá minhas razões.

Absurdas? Antiquadas?

São porém essas razões

muito bem fundamentadas.

A maneira de cobrar

se comeste na hora certa.

Minha forma de exclamar:

Santo Deus, camisa aberta!

Tosse, gripe, resfriado.”

Mundo tão desavisado

esse teu, tão imprudente.

Mas pondere o coração,

por favor não se dê tanto,

põe cautela na emoção.

Meu cuidado causa espanto,

é meu zelo simplesmente

que não é mais atual.

Filho tão independente

que o cuidado é irracional.

Mas se um dia

eu não cobrar,

te der toda a liberdade.

E jamais me preocupar

com a tua integridade.

Não olhar mais o teu rosto,

Não notar tuas olheiras.

Quando os doces de teu gosto

eu não deixar nas compoteiras.

E puser no travesseiro

a cabeça mansamente.

Sem saber teu paradeiro

e dormir tranqüilamente.

Quando eu não quiser saber,

nada enfim te perguntar,

teu deslize não doer

nem teu riso me encantar,

Aí sim, tu podes crer,

cabe então me reclamar.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Dieta


Não!

Eu não deixei de te amar.

Absolutamente!

Simplesmente

me apaixonei por mim.

Meu amor virou doença,

mas cansei-me

dessa tua indiferença

e dei por fim.

Quem ama

não esquece de repente,

Penso até que não esquece

felizmente, no entanto

a gente cresce, amadurece

e reconhece que envelhece

e começa a evitar

o que faz mal.

Procura evitar o açúcar,

pouco sal,

Evita o que é prejudicial

ao fígado, ao estômago,

à circulação.

Evita o que faz mal

ao coração.

Por isso é que passei

a te evitar

sem te esquecer,

Pois não deixei de te amar,

porém, quero viver.

Mas te gosto,

gosto, gosto e como gosto.

De um jeito

que nem eu sei

como explicar.

Se gostasses a metade

do que eu gosto,

tu não te caberias

de gostar.

Pois eu te gosto,

gosto, gosto e como gosto

e aposto

que gostar como eu gosto

é raridade.

Te gosto com tanta intensidade

que chega até a doer

meu coração.

Mas se não dá, não dá,

viva a razão!

O amor sem reciprocidade

não tem nenhum porquê

a relação.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

A feira


O burburinho começa

no meio da madrugada;

os homens andam depressa,

mercadoria espalhada,

cavaletes, tabuleiros.

Estica a lona, ô José,

Aperta o nó, companheiro.”

Seu Jorginho tem café

fresquinho, saiu agora.”

ai meu dedo, seu mané!

Quase arranca o dedo fora

ai que dor!”

Preste atenção

puxe a lona pra direita

faça um laço no cordão

puxa, estica, aperta, afeita”

e segue a luta renhida

e a feira vai se formando

e uma garra comovida

vai crescendo, vai tocando

o suor pinga na testa.

Ai meu Deus, me dê coragem

quanto tempo ainda me resta

pra tocar essa engrenagem

madrugada, chuva fina,

vento forte, cerração,

nada foge da rotina

tudo igual na profissão.

Mas a feira está formada

Legumes, frutas, verduras,

flores lindas perfumadas,

queijos, doces, rapadura,

camisolas, camisões,

bugigangas, churrasquinho,

Peixe fresco, camarões,

há de tudo no caminho,

Leitão assado, chouriço

pipoca deliciosa.

Faz o moço um reboliço

com a balança duvidosa

Laranja lima, seleta

Apregoa o “seu Manoel”

na minha rua – completa

até meu limão é mel.

A laranja é mesmo doce?”

Ô menina! É uma beleza!

É doce como se fosse

beijo doce de princesa.”

Se é doce então vale a pena.

Duas dúzias, por favor.”

De beijos, linda morena?”

De laranja, meu senhor.”

Seu Manuel ri desmedido

não deveria brincar.

De certo foi atrevido,

tenta se justificar.

Me desculpe a brincadeira

por favor, não leve a mal.

São trinta anos de feira

é preciso bom astral.”

Faz o menino escarcéu

de banca em banca, engraçado:

Olha o quibe, olha o pastel

olha o suco bem gelado.”

O velhinho da algibeira

tira um sorriso ancestral

Vai limão, é de primeira?

São cinco por um real.”

A feira é todo esse encanto,

a gente encontra carinho,

Gente boa divertida,

Alegria costumeira.

Embora a luta renhida,

sempre cabe brincadeira,

e nesse astral segue a vida

e nesse astral vive a feira.

domingo, 10 de maio de 2026

Baixada



Baixada

com toda essa timidez

tu és bonita demais.

Levada? Fama talvez.

Levada ou não tanto faz.

Baixada,

pintam maldade,

miséria, dor, agonia,

mas não a felicidade

que mora no dia a dia.

A bola rola um colosso,

feijoada no quintal,

terra de velho, de moço,

de garra fenomenal.

O boteco do “Seu Zé”

tem uma pinga de jeito,

cura mágoa, dor no pé,

as “ziqueziras” do peito,

ingratidão de mulher,

um trago só e tá feito.

Salta a cerveja gelada,

trás o copo para o Adauto,

hoje a conta ta zerada

põe lá no prego mais alto,

e uma conversa afiada

e a roda cresce num salto.

O trem que corta a Baixada

trás pendurada a alegria

ao som de uma batucada,

samba, suor, poesia;

se a vida for complicada

sorrisos têm por magia.

Minha Baixada é assim,

há um otimismo sem fim

dobrando as mágoas de alguém

e na cabeça a noção:

o sol que doura a mansão

doura o casebre também.

Nossa Baixada é assim,

acordes de um bandolim

entram na alma da gente

e um violão displicente

nos dedos de um aprendiz

desafina, pedem bis

na ânsia de incentivar,

alguém murmura baixinho

uma canção de ninar.

De algum lugar

vem um cheiro,

um cheiro bom de tempero

que toma conta do ar.

Essa é a Baixada da gente,

Um jeito bom de viver,

se há humildade aparente

há uma riqueza de ser.

Baixada quem te conhece

sabe da tua candura,

sabe da tua ternura,

doçura de lambuzar,

os bouguevilles debruçam

nos muros de separar,

E as bananeiras arcadas,

goiabeiras carregadas

mangas, caquis, araçás.

Ainda se encontram faceiras

cana caiana, touceiras

docinhas pelos quintais.

Quando se fala em Baixada

tem muita gente emproada

que às vezes torce o nariz.

Nossa Baixada é decente

É terra, é berço da gente

que luta, mas é feliz.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Sabes?


Sabes de que

que eu tenho saudade?

Do jeito tão doce

que olhavas para mim,

aqueles sorrisos

por tudo, por nada,

a vida encantada

eu julgava sem fim.

Sabes de que

que eu tenho saudade?

Da cumplicidade

e o amor que existiam.

Eu era metade,

você a metade

e as duas metades

num só se fundiam.

Sabes de que

que eu tenho saudade?

do beijo, Ah! o beijo

que a gente se dava

e se demorava

alheio ao redor.

O mundo era nosso,

um mundo maior,

cabiam meus sonhos

e eram bastantes,

cabiam teus sonhos

demais fascinantes

e tantos projetos,

roteiros demais.

Sabes de que

que eu tenho saudade?

da paz,

a paz que existia

nos nossos abraços,

a gente prendia

a ternura nos laços

e o tempo era escasso

pra tanto se dar.

Sabes de que

que eu tenho saudade?

Eu tenho saudade

do tempo de ousar.

Me dar por inteiro

sem me machucar

Eu tenho saudade

de olhar nos teus olhos

sem medo de olhar.

quarta-feira, 18 de março de 2026

João Prado homenageado


 A edição de março do Garimpo - Mensário de Poesia e Espiritualidade prestou uma bela homenagem ao poeta João Prado. Poetas de várias partes do Brasil escreveram versos dedicados ao Poeta do Otimismo, compondo assim uma verdadeira carta de amor e gratidão pelo seu trabalho.

O Garimpo, cujo título foi inspirado no segundo livro de João Prado, é um boletim poético virtual publicado desde 2016. A edição dedicada a João Prado pode ser baixada gratuitamente CLICANDO AQUI.

terça-feira, 10 de março de 2026

Reconhecimento


Era um mendigo velho,

bem velhinho,

Os olhos muito azuis,

corpo magrinho,

As mãos tão enrugadas

coitadinho.

As faces castigadas

sem carinho,

as vestes tão surradas,

desalinho,

futuro quase nada,

miudinho.

A fé inabalada

e tão sozinho,

sentou-se sob a ponte

e sobre o chão

juntou toda ternura

e devoção.

E então com muita fé

ergueu sua latinha

de café

e meio pão

e agradeceu a Deus

a refeição.

domingo, 1 de setembro de 2024

Depoimento de tragédia urbana


Aí ela pegou a faca

eu vi, seu moço

e ZÁS, com um golpe frio

e do pescoço

o sangue fez jorrar.

De nada valeu da morta

a resistência,

pois ela demonstrava ter

experiência no jeito de matar.

Depois então

da água que fervia no fogão

sobre o corpo inerte derramou.

Aí, ato contínuo

friamente

foi-lhe tirando as roupas

bruscamente

até que o corpo inteiro

desnudou.

E a cabeça fez-se decepada,

as coxas também foram separadas

e o tronco num só golpe

aberto ao meio.

Picou-lhe em pedacinhos,

disparate.

Pôs sal, pôs cebolinha,

pôs tomate,

depois de lhe arrancar

todo o recheio.

Havia uma emoção

nos olhos dela

quando temperou toda a galinha

e pôs pra cozinhar

numa panela.

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Origem


E se me perguntarem nas andanças

onde eu aprendi versos de amor;

Onde eu encontrei tanta esperança

E em que caminho afinal achei a flor;


E se me perguntarem aonde eu for

se existe céu assim tão estrelado

Ou apenas é ilusão de um sonhador

que anda vez em quando tresloucado;


E se me perguntarem onde a lua

brilha com tamanha intensidade.

E onde eu encontrei a tal da rua

na qual reside o amor, felicidade;


E onde é a terra promissora

de gente com amor pelo torrão;

e a cidadezinha encantadora

da qual se for preciso eu beijo o chão;


E se me perguntarem em que praça

a gente ainda encontra poesia;

E onde a lua brinca, faz pirraça,

na ânsia de ficar por todo o dia;


Onde é a terra hospitaleira

de gente fim de tarde na calçada?

A mão sempre estendida, costumeira,

sorriso feito flor desabrochada.


Eu com todo orgulho então direi:

Eu venho de um lugar tão requintado

que lá qualquer pessoa é feito rei.


Eu venho de uma terra tão bonita,

que um dia Deus criou emocionado

e os homens batizaram de Mesquita.

segunda-feira, 1 de julho de 2024

Rua dos sonhos


À tardinha, na minha rua,

a vida é de qualidade;

tem gente vivendo a vida

com tanta simplicidade.

Meninas brincam de roda,

moleques jogam pião,

há um grupo no portão,

falando de futebol.

E três ou quatro meninas,

queimadas de muito sol,

falam da vida, da sorte,

da esperança, da alegria,

a matemática mata,

mas que inferno,

e a geografia?

E o pipoqueiro aparece

lá no princípio da rua.

O sol cochila, adormece,

é cheia a fase da lua.

E a lua linda prateia

a rua, serenamente.

Quem dera que a lua cheia

desse filhotes pra gente

e o pipoqueiro persistente

com a roupa branca, engomada,

e a meninada que assiste

desponta em flor na calçada

Belém, blém, blém, blém, belém

Pipoca doce, salgada.

E a velhinha faz crochê

em uma cadeira e balança

dá gosto da gente ver

a habilidade na trança,

Borda a saudade de verde

pra confundir com esperança.


O rio passa sereno

sob a ponte de madeira,

na vida a pressa é um veneno,

vai passar a vida inteira.

É necessário prudência

na queda da cachoeira.


Na minha rua se encerra

uma ternura invejada,

mas minha rua é de terra,

de chão batido, coitada!

Coitada, mas que coitada?

Mas que coitada, que nada.

A minha rua é encantada,

a minha rua tem vida,

rosas, jardins, margaridas

desabrocham nos quintais;

mangas, caquis, araçás,

goiabas brancas, vermelhas,

chão batido, cor de telha.


A minha rua é vermelha

tal qual sangue que corre,

tal qual tarde que morre,

tal qual vinho que escorre,

tal qual tarde que morre

depois de um dia de sol.

O sol que deixa vermelho

o céu de todo arrebol.

Mas quando enfim anoitece

e a rua é toda sossego,

entre os murmúrios de prece

há sussurros de chamego.

Depois a rua adormece.


É paz em cada aconchego.

E a paz com tudo realça

e surge um anjo encantado

cobrindo a rua descalça

com um manto todo estrelado.

sábado, 1 de junho de 2024

Torcedor desiludido


Mas Mengo que desgraceira!

Vai ficar nessa pasmeira

ou vai jogar pra vencer?

Antigamente, Mengão,

você batia um bolão

dava até gosto de ver.


Tempos bonitos de glória,

cada jogo uma vitória,

vida de tranqüilidade.

Agora o jogo começa

você cai, você tropeça;

ta faltando intimidade?


Botei camisa e boné

saí pra dar um “rolé”

Eu era todo Mengão.

Um safado, bem safado,

me pediu tudo emprestado

pra fazer pano de chão


Ô Mengão, tá tudo errado!

Eu já ando amargurado

pois é tanta gozação.

Como é que vai o “Menguinho”

com “ar” de „„pequenininho‟‟?

É segunda divisão!

E a gozação é geral,

tem time perna de pau

limpando a cara comigo.


No bar lá perto de casa

a gozação cria asas,

parece campo inimigo.

“Ô Seu Manoel, por favor,

uma vela, meu senhor,

tem alguém agonizando.”

E eu tenho que engolir,

ficar calado e ouvir.

É certo o que estão falando.


Ô Mengão, não compreendo,

francamente eu não entendo.

Explicação não se encontra

o treinador “na ferida”:

“Quero gol nessa partida”

Você vai e faz gol contra!


É, o outro time jogava,

fizemos gol onde dava.

Explica-se o jogador.

O treinador não pediu?

O gol saiu, não saiu?

E ainda sou goleador.


É triste, mas é verdade,

um torcedor nessa idade

viver o que estou vivendo.

Ô Mengão, vê se te ajeita.

isso é praga ou coisa feita?

Não estou te reconhecendo.


Nos tempos idos Mengão,

com a meta de campeão,

era o jogo disputado.

Hoje na fase indecente

a gente torce somente

para não ser rebaixado.

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Recado nº 4


Tu que andas cansado

vazio, desanimado,

parece que o mundo todo

já desabou ao teu lado,

levanta cara, sacode,

eu não sei como é que pode

tanta amargura e desdita

e crê, a vida é bonita!

Vem ver na beira do tempo

a festa que o tempo fez

e reage de uma vez,

galopa numa esperança

tirada de lá do fundo.

Rodopia a mão no mundo,

num laço prende a certeza,

briga, sacode, disputa

vira a mesa, vai à luta.

A vida te cobra vida,

o mundo te cobra garra,

amarra o teu desengano

num pé de não quero mais

bem distante da esperança,

da coragem bem lá atrás.

Acredita, vai em frente

com raça quebra a corrente

e bate no peito: eu posso,

quero, faço, aconteço;

vira o mundo pelo avesso

mas faz, constrói, realiza

não precisa ser gigante

super-homem nem precisa,

basta seres tu somente

com a força suficiente

que tens lá dentro de ti

mas que está adormecida.

A vida te cobra riso,

faz da vida um paraíso,

quem tem raça por raiz

terá flor feito sorriso.

Vem, levanta firme, altaneiro

põe sangue nas tuas veias,

põe mais sal nesse tempero,

habita Deus no teu peito

de um jeito bem verdadeiro.

Tem estrelas te espiando.

Que importa a lama no pé?

A fé que vai carregando

a gente, se for a fé

se realmente palpita

faz essa vida bonita

do jeito que a vida é.

segunda-feira, 1 de abril de 2024

Desencanto


É seu moço

a gente cansa.

Deixa brincar a esperança

no peito

enquanto menino.

Porém

quando o tempo avança

e então conhece o destino

vê que o sonho de criança

vai ficando pequenino

vai minguando,

se extinguindo,

deteriorando

fugindo.

E por fim deixa de ser.

E o sonho todo sonhado

sonho bom de se viver

brinquedo fragilizado

muito fácil de perder.

E a gente olha o horizonte.

Olhos tristes, rasos d‟água.

A ponte que leva a fonte

ruiu com o peso da mágoa.

É seu moço

Eu já fui rei

oito anos, dez

nem sei.

Só sei que tinha um tesouro

guardado com muito jeito

feito em gaiola de ouro

um passarinho em meu peito

cantava por todo dia.

Peito jeito de paiol

explodindo de alegria

e então com raios de sol

eu retocava a poesia.

Fui menino sonhador

Tempo bom. Ah! Que saudade.

meu conceito de valor,

francamente, de verdade,

era ser rico de amor

pra viver felicidade.

Mas o tempo foi passando

e esta vida com certeza

a alegria foi trocando

pelo caos dessa incerteza

e meu sonho foi levando

feito flor na correnteza

E do tempo de criança

a ternura ainda guardei

mas perdi minha esperança

minha fé, ainda não sei

Eu só sei que a gente se cansa

Eu só sei que eu já fui rei.

sábado, 28 de outubro de 2023

MÃOS

 


Falá desses cinco dedo

qui num têm valô nem nada,

isso é, num têm valô

pruque é mão calejada

do negro que já passô.

E nessa sociedade

adonde impera a mardade

e a farsidade chegô

só tem valô quem tem nome

quem tem um curso de fome

vale é nada sim sinhô.

Falá dessas mão cansada

qui num tem ané nem nada

ané de grau de dotô,

inté crime deve sê,

falá dessas mão cansada

que nem se ajeita escrevê.

Mas essas mão, seu dotô,

que as vez pede uma esmola

pra aos tranco eu podê vivê,

já tocô munta sanfona

pra gente “grande” dançá,

já revorveu munta terra

pras coisa boa prantá,

pro seu dotô na cidade

de ané no dedo comprá.

Já seu dotô, já fez rede

pro sinhô se balançá,

foro essas mão calejada

que munta cruz fez na estrada

pra sepurtura marcá.

Foro essas mão, seu dotô

que já coieu munta frô

pru seu salão enfeitá.

Foro essas mão sem valia,

essas mão sem sevrentia

que hoje pra nada presta.

Que o sinhô diz que num presta

pruque tá véia e cansada

pruque se estende a uma esmola.

Foro essas mão seu dotô,

que fez casa pra vancê,

que pra vancê fez escola.

Foro essas mão, seu dotô,

essas mão abrutaiada

que inté já coieu uma rosa

pra Sabina dedicá,

Pois essas mão calejada,

essas mão sacrificada

já teve quem carinhá

essas mão selô cavalo

pra coroné passeá.

Foro essas mão, seu dotô,

que prantô munto café,

que limpô, coieu, torrô,

e hoje pra nada presta

Preto véio vale nada

pois o seu tempo passô,

e preto véio cansado

num tem patrão nem valô.

Mas essas mão, seu dotô,

munto embora já cansada

cheia de calo da enxada

que o tempo nunca desfez,

é mão limpa de vredade,

num é dessas mão covarde

que só armada é valente.

É mão de cabra decente.

Num é dessas mão bunita

mas que se esquece no jogo.

Não, seu dotô, essas mão

nunca teve essas noção

de cheque farsificá.

É, seu dotô,

essas mão

têm o direito e a razão

de à noite a Deus suplicá.

Pruque é bom, seu dotô,

sem nome,

o cabra caí de fome

sem um pedaço de pão.

Pode inté morrê na estrada,

porém morrê como home,

com as mão feia, calejada

com as mão cansada da vida,

com as mão vazia, sem nada

esmolejando um tostão.

Mas dotô,

com Deus no peito e na alma

e um pouco de Deus nas mão.


quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Convicção


Ainda vou te conquistar...

eu não sei quando

e quanto tempo vai durar

essa conquista

e não insista

em dizer que não vai dar,

porque eu vou

te conquistar.

Demore cem,

duzentos

ou até trezentos anos,

eu te coloquei

dentro dos planos

e vou te conquistar.

Se for preciso

mergulhar

no oceano mais profundo

e a pérola mais rara

desse mundo

eu conseguir pra te ofertar,

pra te provar

que te amo tanto,

vou mergulhar

e te garanto

que vou te conquistar.

Se for preciso

ir buscar alguma estrela

e trazê-la na mão

brilhando ainda.

Se for preciso ir buscar

a flor mais linda

que eu nem sei

onde encontrar,

vou me virar

vou procurar

e vou te dar,

e vou te conquistar.

Se for preciso

ir ao Papa, ao Presidente,

ao onipotente de Moscou

eu vou

e vou te conquistar.

Imagines o impossível,

o intransponível

eu vou realizar.

Eu vou transpor

por amor

o que é que eu não consigo

quando quero,

passe o tempo

que passar.

Eu brigo, espero

e vou buscar.

É uma questão

de vivência,

de experiência.

São teus olhos

que me dizem

com esse jeito

de me olhar

que ainda vou

te conquistar.

E por isso, minha amiga,

passe o tempo que passar,

gire o mundo

tantas voltas

que tiver para girar,

e que siga o teu caminho,

e que eu siga o meu caminho,

que me custe o que custar,

por favor, pode anotar

que mais tempo ou menos tempo,

mesmo havendo contratempos,

ainda vou te conquistar!