quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

DONA BARATINHA QUER CASAR



Dona Baratinha
pôs na porta da casinha
onde morava tão sozinha
uma placa bonitinha,
um aviso colorido:
“Precisa-se de um marido.”

Pôs-se na frente do espelho,
deu um trato no verniz
e passou um batom vermelho
fez um ar de bem feliz.

Pôs perfume, pó de arroz
e depois, bem maquiada
e julgando-se a mais bela,
muito bem paramentada
debruçou-se na janela
esperando o resultado.

Nisto surge o Gafanhoto,
um funkeiro saltitante,
mas um Grilo bem maroto,
pagodeiro interessante
muito bem intencionado,
muito doido pra casar,
um pagode incrementado
começou logo a cantar:

“Baratinha, Baratinha,
me escolha por favor,
vou encher esta casinha
de ternura e muito amor”

O Gafanhoto ultrajado
ficou muito aborrecido
pois era mudo o coitado;
queria ser o marido
e aquele Grilo abusado
fora demais atrevido.


Baratinha não gostou
daquela situação.
Decerto o Grilo abusou
e o Gafanhoto, um bobão,
no fim das contas chorou.
“Ai meu Deus, que confusão!”

Zangada mais que ninguém
trancou portas e janelas.
“Há males que vem pra bem.
Todos os dois, tão magricelas,
aposto, em casa não tem
nem comida nas panelas.”

E pra findar a questão,
dar um fim na picuinha,
Dona Baratinha, coitadinha,
muito da estressadinha
arranjou a solução:

Pôs na porta da casinha
outra placa bonitinha:
“Marido é complicação,
prefiro ficar sozinha!
Assinado, Baratinha.”

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Virei Criança...: novo livro de João Prado

      Com previsão de lançamento em outubro de 2012, "Virei Criança..." é o mais novo trabalho do poeta João Prado.
      É o quinto livro de João Prado e o primeiro totalmente voltado para o público que ele mais ama: as crianças. São poemas leves, engraçados, divertidos e com a marca do Poeta do Otimismo.
      O livro ainda traz ilustrações para colorir assinadas por Luise Cardoso, que também desenhou a capa. 
      Confira um poema e algumas imagens.
O SOL NÃO TEM GUARDA-CHUVA
Creio que o sol
não tem guarda-chuva
nem capa;
se chove
ele logo se esconde.
Será que ele fica
em casa dormindo?
E se acaso tem casa,
também não sei onde.

Ele é tão bobinho,
não sabe o que é bom:
brincar numa chuva,
ficar bem molhado,
sapato encharcado,
meu Deus, ATCHIM!
O risco que tem
é pegar resfriado.

Mas vale a aventura,
o risco compensa!
Pra mim o sol tem razão:
se o meu corpo quente
me faz resfriar,
coitadinho do sol,
que resfriadão!





quarta-feira, 20 de julho de 2011

DE REPENTE

De repente
a gente quer
só ser,
sem gravata
e sobrenome,
quer andar
de pés no chão,
curtir a fome
de comer
feijão com arroz.
De repente
a gente
não pretende
ser mais dois,
de ser um
pra sociedade
e ser outro
interiormente.
De repente
a gente quer mandar
para os espaços
os abraços mentirosos
e viver só dos abraços
preciosos.
De repente
a gente
quer vestir a calça jeans
mais desbotada,
mais surrada
e sair sem compromisso
numa estrada
sem destino,
sem relógios,
bem menino,
sem cartões,
talões de cheques,
só um fundo de razões.
De repente
a gente quer viver
muito moleque
e subir pelas encostas
deslizar pelos barrancos
esquecendo
o isso é feio,
isso não deve.
De repente
a gente atreve
e se despede da vaidade,
fica nu de preconceitos
sem pensar
nas conseqüências
esquecendo
o que é direito
mas que é contra
a consciência.
De repente dá vontade
de sair pela cidade
libertando prisioneiros
e prendendo quem não é,
que fez tantas falcatruas
mas virou nome de ruas,
que errou com tanta fé
que deu certo,
infelizmente.
De repente
dá vontade
de curtir um lampião,
um sertão, uma palhoça
pois o peito é quase roça,
dá de tudo,
solidão, dá saudade,
dá perdão,
cada penca de tristeza
que arrumada sobre a mesa
dá banquete
pra um milhão.
De repente
dá vontade
de comer fruta madura
pendurada ainda no galho.
De repente
dá desejo
de dizer para o trabalho:
vou de férias,
de licença
me cansei dessa doença
me curei, não quero mais.
De repente, de repente
dá saudade
de uma paz,
de deitar num colo amigo
e entregar-se nesse abrigo
sem nenhuma resistência.
De rasgar vossa excelência,
o doutor, o protocolo
e sair de colo em colo
sabe? assim
feito criança
tudo é certo,
arte pura
e na dança da ternura
libertar os passarinhos.
De repente dá vontade
de ser livre
sem cobranças,
de ser bem pequenininho.
De rever as esperanças
de voltar,
e estar na frente
e pisar na velha estrada,
de ser nada.
Simplesmente,
de repente
dá vontade
de ser gente...

quarta-feira, 1 de junho de 2011

CERTA TEIMOSIA CERTA (“O CORREDOR”)

-Vou ficar aqui correndo
-Joãozinho, aqui não pode.
-E porque que aqui não pode?
-Proibido meu amor.
 -Como é o nome disso?
-Disso aqui? é corredor
Então vou ficar correndo.
-Joãozinho, por favor
eu já disse que não pode.
-Pode e corro sim senhor,
esse nome já diz tudo,
isso aqui, é corredor.
-Corredor de hospital,
ôôôô... menino impertinente.
-Pois então é menos mal,
corre eu, corre você,
corre o médico e o doente.
-Se o doente aqui correr
certamente vai morrer.
-Isso aqui é corredor
é o lugar onde se corre
não falaram morredor
que deve ser onde se morre.
-Vou ficar aqui correndo
-Joãozinho, atenção
para o que eu estou dizendo
se você continuar
eu acabo lhe batendo
-Mas você confunde tudo
isso aqui é corredor,
o lugar onde batemos
deve ser no batedor.
-Joãozinho, não insista,
isso aqui, é de passar.
-Então fala pro doutor
por favor, para mudar.
bota escrito: - passador.
Está escrito que eu já vi
isso aqui é corredor
e eu vou correr aqui.
Nisto surgem os doutores
a correr nos corredores,
urgência na U.T.I.

terça-feira, 12 de abril de 2011

A RUA SEM PAR

A rua que eu moro é uma rua tão calma
Calma com a alma dos poetas sonhadores,
Dos pintores.
Rua das velhas cantigas,
Das horas antigas,
Das almas antigas,
Das casas antigas.
Antigas, mas belas,
Singelas, rosas,
Azuis, amarelas
Com tantas janelas
E em cada janela
Uma bela mulher  sorrindo a cantar.
Rua sem par...
Ruas dos lampiões,
Dos velhos lampiões,
Rua das canções,
Rua dos violões,
Rua da serenata que em noite de prata
A lua tão grata se punha a escutar.
Rua dos vendeiros cansados,
Suados, arcados
Com o cesto à cabeça
Gritando, gritando:
“Laranja da China!
Melão, tangerina!”
E os doceiros
“Cuscuz, rapadura, cocada!
Quem tem dinheiro compra
Quem não tem não compra nada!”
E lá iam eles pelas calçadas
E a meninada em disparada
Corria a comprar.
Rua sem par...
Rua do cinema,
Rua do fórum,
Rua da escola municipal,
Rua da Catedral
Lá no final do coqueiral.
Domingo de missa...
Domingo tem missa?
E alguém perguntando
E o sino badalando no instante a seguir:
“Domingo tem! Domingo tem!
Domingo tem! TEM! TEM! TEM!”
Rua das diligências
Em que as excelências passavam importantes,
Elegantes em várias direções.
Rua das mil recordações,
Rua fiel de encantar,
Rua sem par!
Rua da feira
Moleques brincando,
Poetas sorrindo,
Mulheres comprando,
O sol ressurgindo,
Pardais revoando,
Flores se abrindo,
Barcos voltando!
Rua da praia
Da praia pequena, morena,
Serena, queimada de sol.
Rua de escol!
Rua do branco, do negro,
Do pobre, do rico.
Rua de Deus que por Deus
Foi criada,
Rua encantada onde hei de encontrar
O poeta encontrou
Hei de andar, hei de andar,
Hei de um dia chegar,
Hei de um dia criar
A rua de Deus,
A rua do amor,
A rua sem par!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

VERSOS EM RECONSTRUÇÃO

Todo mundo tem reserva de coragem,
lá no fundo.
Corre, busca Deus depressa
é a reserva deste mundo.
Oi você que anda triste,
cansado da vida.
E que acha comprida
essa vida, sem graça.
Oi você que não passa
da imagem sofrida
tendo de sobra pra dar
tanta raça.
Oi você que soluça
se o amor foi embota,
e chora,
e se gasta no fundo da vida.
Oi você que caminha
na larga avenida
Alheio ao progresso
do mundo gigante.
Oi você que procura
talvez nesse instante
a mesa do bar
ou a soda fatal.
Oi você que cansou de esperar
desperta afinal que a festa há de vir.
Se existe um motivo
pra gente chorar,
há mil pra sorrir.
Segura a viola
e segue meu canto,
foi feito na raça.
É o canto que fica,
a dor depois passa,
e o importante é se dar
pro que fica depois.
Oi você que quisera
ser dois pra lutar,
sua força é de dois,
basta crer e enfrentar.
Toca o barco sozinho
e na hora do vinho
alguém vem pra ajudar.
Oi você que se julga
tão só nesse mundo
e um tédio profundo
carrega no peito,
dá um jeito na vida,
procura no fundo
esse Deus feito raça,
esse arrojo que é feito
de amor e otimismo,
que é feito de empenho,
de fé, de altruísmo,
as armas mais fortes
pro homem lutar.
Faça um samba do pranto
e aproveita esse canto
que é bom pra sonhar.
Oi você, oi você,
oi você, oi você,
vem comigo cantar
e sorrir de uma vez.
Oi você, oi você,
oi você oi vocês.