sábado, 26 de setembro de 2015

ENCONTRO


Quem poderia julgá-los
tão juntinhos!
Os nossos corações
que separados vagaram,
mas trazendo ensegredados
a tanto tempo
a ânsia de carinhos.
Quem poderia julgar
que nós sozinhos
ainda íamos passar
de braços dados.
De alma, sonho, amor
entrelaçados.
O mesmo amor que uniu
nossos caminhos.
Quem poderia julgar
que os nossos passos,
num constante divergir
nos seus compassos,
aos poucos nossas vidas
já juntavam.
Talvez, quem sabe?
muito intimamente,
se amassem,
tu e minh’alma contente
e os nossos corações
se namoravam.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

EU SOU O QUE SOU


Não exijam de mim
nada mais do que sou
nem que eu seja mais santo
ou até mais perfeito.
Eu sou o que sou,
nem melhor nem pior.
Tenho amor passarinho
batendo no peito
e acredito que a vida
vai de bem pra melhor.
Eu tenho um perdão
que é infindo em tamanho;
as mágoas do dia
se escoam no banho,
nos ralos da vida
com água e sabão.
Eu tenho a certeza
que a gente com raça
e até por pirraça
quebra os espinhos,
conquista a razão,
sacode a poeira,
rasteja no chão
mas levanta a cabeça
depois do tufão.
Eu tenho a certeza
que a força dos ombros
dá pra levar
dessa vida, os escombros
de tudo de bom
que ruiu por aí.
Eu traço uma meta
e faço a certeza
que dá pra sorrir.
Eu amo a beleza
que existe no feio.
Eu acho que o meio
pra gente seguir
é matar a tristeza
com um pouco de garra.
Eu faço uma farra
com um dedo de prosa.
Eu sou a cigarra
que canta, mas vivo
me encanto com a rosa
e sempre acredito
que o mundo amanhã
pode ser mais bonito.
Eu tenho defeitos,
cometo meus erros
mas sei que melhoro,
eu sei quando choro
por charme, bobices,
tolices, desdém.
Eu sei quando eu choro
com toda a razão.
Eu tenho aqui dentro
também coração
que espera carinho
que às vezes não vem.
Eu sei que aqui dentro
se esconde a ternura
que às vezes ninguém
consegue entender.
“Se eu tenho defeitos
como pode existir
amor no meu peito?”
Eu sou o que sou...
Um pouco de Deus
e um pouco bandido,
no entanto eu duvido
que alguém tenha amor
mais bonito que o meu.
Não julgue uma luz
pelo brilho que deu,
quem sabe a vista
está fraca pra ver
e o brilho é maior
que o que te apareceu?
Me agarro nas pedras
pra sobreviver.
Eu quero tua mão
pra me reerguer
e encontro empurrão
fazendo descer.
Ainda acredito
que possa nascer
a festa no peito
de tanto doer.
Depois do sufoco
é que vem a bonança
quem sofre é que aprende
crer na esperança.
Eu sou o que sou
e assumo o que faço.
Tem gente que erra
um passo na dança,
se embola no passo
e aponta que a culpa
é do outro que errou.
Eu sou o que sou
sou meio rebelde,
sou brabo, danado
e ando cansado
de me criticarem
“não faças assim,
inventa outro jeito”.
Será que o defeito
não é de me olharem
com certo despeito?
Eu sou desse jeito,
autenticidade.
Eu falo a verdade
tentando acertar.
Eu digo o que penso
sem demagogia,
sem medo de errar,
no entanto algum dia
se te machucar
não fiz por querer
falei por falar.
Eu sou o que sou
é o meu jeito de ser,
não posso mudar
pra te satisfazer
e deixar aqui dentro
eu mesmo morrer.
Eu sou o que sou

pra quem quer saber.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Roda Gigante


A roda gigante do parque
sobe e desce,
sobe e desce,
sobe e desce,
sobe e desce,
e as pessoas
passam bem junto
das estrelas
Depois passam sorrindo
rente ao chão;
e uma explosão
de gargalhadas acontece
durante o sobe e desce.
Eu queria que essa gente
compreendesse
que a roda gigante da vida
sobe e desce,
sobe e desce,
sobe e desce,
até parece a do parque,
até parece.
Eu queria que essa gente
compreendesse
e sorrisse quando andasse
lá por cima,
mas viesse sorrindo
se descesse.
Eu queria que essa gente
compreendesse
e caísse no samba,
e secasse esse pranto
e deixasse a dor num canto
que o programa é de cantar.
O nosso parque
foi montado na avenida
e quem souber viver a vida
nem vai ver a dor passar.
Eu queria que essa gente
compreendesse
que o cair não mete medo,
que o subir não tem segredo
que o descer vai ser brinquedo
pra quem crer no “levantar”.
Alegria, minha gente!
essa dor passa, cantando.
Quem tem flores nos caminhos
quem tem sol dourando o peito
decerto não tem direito
de viver se lamentando.
E alegria, minha gente,
é uma festa interior
feita de sorriso e paz,
quando o tédio vai chorando
pelas mãos do nunca mais.
Alegria, minha gente!
Leva o riso na subida,
trás o riso na descida
no sobe e desce contente.
Pois no meio da descida
nessas guinadas da vida
que se vê constantemente
quem teve muito juízo
já trás consigo o sorriso
pra subida novamente.
E quem andou pelos bancos
dessas escolas da vida
nem faz questão da subida
pois sabe que a vida traz.
Tanto faz andar lá em cima
ou lá em baixo, tanto faz.
O importante na corrida
é carregar na descida,

da subida a mesma paz.

terça-feira, 21 de abril de 2015

ÁRVORE

 

 

Com forças gigantes
rasguei essa terra
e sorri para o sol.
Que festa de escol!
Que mundo contente!
Eu não sei, francamente
porque tanta festa em
em todo o arrebol.
Com o tempo eu crescia
e trazia um segredo:
Eu seria gigante,
mais tarde ou mais cedo.
Eu esticava os meus braços,
e mais esticava.
E mais eu crescia,
e mais eu sonhava
espalhar meus galhos
lá em cima,
e estrelas buscava.
Pro mundo pensar
que as estrelas do céu,
eram flores que eu dava.
Um dia no entanto,
o meu sonho acabou;
o machado de um homem
no chão me jogou.
Mais tarde vivi
num salão requintado,
de tapetes e lustres;
onde as excelências
rodeavam-se a mim
pra fazer conferências.
Eu era mesa importante
de um salão elegante.
O tempo passou,
fui ficando esquecida.
Fui substituída;
nem salão requintado,
nem céu pra buscar.
Fui fogueira depois,
e o fogo que ardia
em meu corpo subia;
e tão forte subia,
como se pretendesse
pro céu me levar.
Acabou-se a fogueira.
Sou cinzas, mais nada.
Sou resto de pó
numa noite estrelada.

E eu quisera
buscar as estrelas,
e o céu todo buscar;
agora afinal,
vou subir,
vou voar,
vou fugir do revés.
Um menino que ainda
não sabe de estrelas,
me espalhou com os pés.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Limite




E agora seu moço
que você já chegou
lá no fundo do poço
no finzinho da estrada?
Mas que fundo que nada:
o fundo é mais fundo,
a dor é mais forte.
Tem gosto, tem cheiro
tempero da morte.
Você pensa que é o fundo,
e ainda que fosse...
Faz de conta
que tudo na vida acabou-se
não há sol, não há céu,
não há mais horizonte.
Não há brilho nos olhos
nem água na fonte
nada mais pra buscar,
nada mais pra cair.
E daí? E daí?
Serve o fundo de base
pra gente subir.
Serve o fundo de apoio
e o impulso há de vir;
vez em quando é preciso
de um tombo lição.
Serve o fundo de estágio
para reflexão.
Você vai cabisbaixo
distante, sem fala.
Você vai se arrastando
no bloco da vida.

Convida a alegria
pra dar uma pala,
convida a esperança
para vir colorida,
dispensa essa angústia
demais caprichosa,
e diz ao otimismo
para vir, sem cuidado.
Convida a ternura
para um dedo de prosa
e avisa a tristeza
“ingresso esgotado!”
Mas levanta esse astral.
Quando a vida da gente
se torna indecisa
é que a gente precisa
fazer carnaval.
E lutar, e vencer,
e provar
que é gigante.
Se é preciso crescer,
que se cresça o bastante
pra trazer as estrelas
na palma da mão,
a cabeça no céu
e os pés firmes no chão.
É possível, seu moço,
basta revolução.
Se já deu pra saber
tua estrela caída,
a receita pra vida
é determinação.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

CAPIM MELADO


Coitadinho do capim,
pois cresceu exatamente
entre as flores do jardim.

Aproveitou a doença
do jardineiro, coitado,
trinta dias de licença
e cresceu por todo lado.

Cresceu por todo o canteiro,
pelos caminhos também,
tal qual um moleque arteiro
aprontou como ninguém.

Mas quem mandou o maroto
invadir o espaço alheio?
Matou plantinhas no broto,
espalhou-se sem receio.

E o jardineiro, curado,
voltou para trabalhar.
E o capim desconfiado:
O que é que vão me aprontar?

E o jardineiro aprontou.
Cuidou de todo o jardim,
de cada planta tratou,
retirou todo o capim.

Por fim ficou a lição:
invadir o espaço alheio
sempre traz complicação.

Mas enfim

Coitadinho do capim...

terça-feira, 8 de julho de 2014

O PALHAÇO CHEGOU

O palhaço chegou.
Maria abra a porta,
o palhaço chegou,
o palhaço, Maria.
E o sereno que cai
vai lavando-me a cara,
não cessa, não para.
Maria, abra a porta,
a noite está fria.
Como é engraçado,
Maria, o telhado,
molhado,
escorrendo por cima
de mim.
E o sereno não passa
e eu cheirando à cachaça
vou batendo na porta,
e você nem assim;
ainda finge estar morta,
nem liga pra mim.
O palhaço chegou,
Maria, abra a porta,
o palhaço chegou,
o palhaço, Maria.
Como é engraçado;
eu com sono danado,
com fome, cansado
e Maria dormindo
não escuta eu bater.
Daqui a pouco
eu me invoco
e sufoco num copo
o meu agro sofrer.
O palhaço chegou,
Maria, abra a porta,
o palhaço chegou,
o palhaço, Maria.
Aha-há-há-há-há...
De que é que estão rindo?
Do palhaço que sou?
Das pancadas inúteis
na porta que eu dou?
Ou da minha fachada?
Se é briga que querem,
venham todos,
eu enfrento.
Se vierem todos
parar aqui dentro,
eu vou vazar pelos fundos
sumindo na estrada.
 
Ninguém tem o direito
de rir,
só Maria.
Só Maria é que pode
rir do palhaço,
do palhaço que sou.
Maria, abra a porta,
abra a porta, Maria;
o palhaço chegou.
Maria, Maria.
Amanhã vou comprar geladeira
e uma TV pra nós dois sozinhos
assistirmos aos grandes programas
sem ser mais preciso
ir ver nos vizinhos.
Maria, Maria.
O que é que se passa?
Será que a cachaça
roubou o amor
que você possuía?
Antigamente brigávamos,
bem sei, é verdade,
mas depois de eu bater
de uma noite a metade,
a porta se abria.
Tu fingias zangada
e deitavas calada
sem me dar nem bom dia,
também era noite,
mas nem boa noite me davas.
Mas no fundo, Maria,
tu gostavas de mim
e a mim perdoavas.
E hoje a porta trancada,
cerrada, malvada,
não abre, por quê?
Eu bebo na rua,
os amigos me pagam,
mas depois
os amigos me chutam,
só quem me atura é você.
Maria, abra a porta,
abra a porta depressa,
estão rindo aqui fora
do palhaço, Maria,
do palhaço que é teu.
Maria, eu prometo,
se abrires agora,
esta noite, Maria,
foi a última noite
que o palhaço bebeu.
Maria, não deixa
eu dormir na calçada,
se não vem o guarda
e leva-me preso
e todos vão rir:
“O palhaço cachaça
foi preso na rua,
pau d’água não tem
amores, nem casa,
nem onde dormir.”
Todos hão de sorrir,
hão de se divertir
com o palhaço que sou.
Maria,
não precisa,
deixa a porta fechada,
vem surgindo a alvorada,
a noite passou.
Quando eu digo palhaço,
você ri, me critica,
mas vê bem se não fica
certinho: palhaço!
 
O palhaço bateu,
chamou, te implorou;
novo sol já raiou
e Maria dormindo
não escuta eu chamando,
batendo e dizendo:
o palhaço chegou!