segunda-feira, 27 de abril de 2020

Doce rotina




Não, não me convide,

Pois não posso.

Domingo

Eu vou cuidar

Dos passarinhos,

Rever as rosas,

Beber meus vinhos,

Ler o jornal

Notícia por notícia,

Cantinho por cantinho,

Sem pressa, sem afobação.

Vou me espreguiçar

Por meia hora,

Vou me debruçar

Por um bom tempo

No portão.

Bom dia, Dona Maria,

Melhorou da rouquidão?

Seu Nestor, deixa o cigarro,

Não faz bem pro coração.

Seu Roberto,

O chá deu certo.

Os meus respeitos,

Seu João.

Se alguém estiver sem pressa,

Quem sabe um dedo de prosa?

Conversa puxa conversa

E a vida flui vagarosa,

Sem me dar tempo pra nada.

Sem falar de uma soneca

Logo após a refeição.

Como vê, vida apertada,

Fui escravo do relógio,

Chefe, ponto, reunião,

Mas agora eu me permito

Nessa vida preguiçosa

E no meio desse agito

Descobrir em cada rosa

O perfume e a diferença.

Por enquanto, posso não,

Pode ser que em outro tempo

Lá por outra ocasião,

Mas, agora, com licença,

Vou cuidar dos passarinhos

Rever as rosas, beber meus vinhos,
Ler o jornal...

terça-feira, 31 de março de 2020

ESPERA



Aquiete o coração.
Quando o mundo diz espera
Muita gente desespera.
mas o mundo diz: espera,
Vai haver renovação,
Toda dor nos faz crescer.
Se é difícil compreender,
sabe Deus porque razão.
Vulneráveis nos caminhos
somos nós uns gigantinhos,
poderosos, sorridentes.
Eis porém que de repente
vem a dor na contramão
e a gente desespera
cabisbaixo, sem noção,
mas o mundo diz espera,
valoriza essa emoção.
Tudo é aprendizado,
sofre agora um bom bocado.
depois vem a Redenção!

João Prado
27/03/2020

terça-feira, 24 de março de 2020

CASTIGO



Hoje eu gostaria de abraçar
Mas não posso não
Fica o abraço
para outra ocasião
Fomos impedidos de abraçar e dar a mão
O momento é de mais reflexão
Quando poderíamos abraçar não abraçamos.
Quando poderíamos doar não doamos
E agora?
A solução?
Parece não haver mais horizontes
Fecharam- se os caminhos, nossas pontes.
Que saudade da emoção!
Do aperto de um abraço...
Coração mais coração...
Num só compasso.

Solidão!
Há notícia de um perigo ,
e a sensação
é que ficamos bem meninos
pequeninos
de castigo
sem saber porque razão.

               João Prado

                 24/03/2020

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Cinzas



Depois de tanta graça e alegria
Se guarda a colorida fantasia
É mais uma ilusão que se termina
Foram três dias que passei em sonho
E na quarta-feira acordei tristonho
Sem confetes, sem tamborim, sem serpentina
Eram cinzas, o sol já ia alto,
Eu ainda sentia o cheiro no asfalto
De um carnaval que viveu, mas que passou
E foi tão breve como é toda folia,
Pois fiquei só nas cinzas de agonia,
Foi-se o amor da alma tristonha que sonhou.
Nas cinzas o folião acha do lado,
Ao despertar, o vidro meio usado
Do lança perfume, os tamborins, a fantasia
E a minha quarta-feira de tormento
Eu encontrei ao despertar no aposento
As minhas cartas e as suas fotografias
A minha vida era um eterno carnaval
Era o mais belo, o mais risonho festival
Que eu vivi, que desfrutei, mas terminou.
As cinzas são mais tristes, foi-se a festa,
Na rua só os vestígios que se restam
De um carnaval que as ilusões todas arrastou
Os presentes e a aliança que lhe havia dado
Estava tudo a mim endereçado.
Nem precisava, eu já sabia a minha sina,
Mandou-me um bilhete sem ternura
Só uma frase sem carinho e sem candura
Aqui entre nós tudo termina.
Ela tirou a máscara, eu tirei a minha.
Eu que julgava ser um rei, ela rainha,
Tirava as tristes vestes de palhaço
E o destino que é ingrato, que é cruel,
Me fez passar por este sórdido papel
Que ainda sinto a dor amarga do fracasso.
Hoje não ouço o repicar dos tamborins,
Não há na rua os pierrots os arlequins,
É quarta-feira, tudo volta ao natural,
Tudo volta a tanger as criaturas,
A tristeza, a agonia, as amarguras,
O dissabor que não se foi com o carnaval.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Se é preciso espetáculo... Tem sim senhor!



E atenção, vai ser dado
o terceiro sinal
“tem, tem, tem.”
E no circo repleto
um povo seleto
em suspense aguarda
o espetáculo de estrela.
Na arquibancada
vê-se estampada
a ânsia normal
da platéia.
Picolés e sorvetes
lambuzam sorrisos
e as pessoas se apressam
em passos precisos
preenchendo os escassos
lugares que restam.
O circo, sei lá,
tem um “quê” que fascina.
A lona e o astral
que afinal
predomina,
um ar de magia
e encanto emprestam.
E anuncia, afinal,
o espetáculo,
um senhor sorridente
e a orquestra afinada
principia a noitada
tocando um dobrado
contente.
E rufam os tambores
e os atiradores
e os mágicos
e os equilibristas
senhores artistas
e as bailarinas
e os dominadores
nos picadeiros desfilam
sobre os faróis multicolores
dos refletores.
Mas embora o espetáculo
comece tão bem
nota-se a falta de alguém,
a alegria do circo.
Algo está faltando no espaço
em meio aos suspenses normais
falta a alegria,
falta o sorriso,
falta o palhaço...
e o palhaço não pode faltar.
Mas onde o encontrar?
no camarim o palhaço querido
sozinho soluça
um romance rompido.
Mas que coisa engraçada!
O palhaço ao invés
de fazer palhaçada
está chorando num canto.
Esvaindo-se em pranto
sofrendo a tristeza
que aos poucos o abate.
O palhaço chorando!
Mas que disparate
que coisa anormal!
E o pranto rolando
e lavando o alvaiade
em gotas sinceras
de infelicidade
de um palhaço real.
Nisto surge o empresário
que autoritário
repreende sem pena
o querido palhaço.
E este, com uma lágrima
tremida
perdida na face
como se a um pranto
quase incessante
cortasse,
parou de chorar
e quase sorriu.
Ajeitou a pintura manchada
na face marcada
e então mascarada.
E para o velho
e vulgar picadeiro, partiu.
E a alegria foi grande
na sua chegada.
E os bravos e vivas
da gente encantada.
Hoje tem marmelada?
Tem sim senhor!
Hoje tem goiabada?
Tem sim senhor!
Hoje tem espetáculo?
Tem que ter sim senhor.
Assim somos nós
em momentos da vida;
às vezes a dor
do pulsar da ferida
castiga tão forte
que a morte é um bem,
mas a força-empresário
lá dentro da gente
precisa ser sempre
gigante, pungente
gritando pra gente:
Além, vai além.
E a gente se veste
palhaço pirraça
fazendo de conta
que o pranto é chalaça
e tocamos a vida
do jeito que for
o peito doendo
a cara pintada
o pranto rolando
fazendo piada
Se é preciso espetáculo,
Tem sim senhor!

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Virei criança

Virei criança
já não tenho mais juízo
descobri que só preciso
de um sorriso pra viver.
Virei criança
não me afobo com a desdita
vejo a vida mais bonita
quando eu deixo acontecer.
 
Virei criança
Faço muito pelo pouco
meio bobo, meio louco
acho a guerra uma utopia.
Virei criança
picolé pra mim é festa.
Eu namoro pela fresta
da janela da alegria.
 
Virei criança
e na estrada da inocência
meu amor virou doença
de se dar sem receber.
Virei criança
eu cantei, brinquei de roda
 e a esperança tão em moda
deu-me a mão pra me dizer
que ser criança
é ter tudo sem ter nada
é nas mãos da namorada
ter o doce que há no mundo.
Virei criança
e tão bom se toda a gente
se fizesse assim somente
pelo menos um .segundo.
 
Virei criança
tenho medo do escuro
e por traz de qualquer muro
pode ter bicho papão.
Virei criança
e meus pés sem protocolo
andam nus pisando o solo
sem pisar minha razão.
 
Virei criança
e com minha atiradeira
derrubei da goiabeira
um filhote de tristeza.
Virei criança
vou feliz cortando o campo
quero a luz do pirilampo
vou nascer na correnteza.
 
Virei criança
vou caçar um resfriado
vou morar todo molhado
numa chuva, coisa boa.
Virei criança
traquinice é minha dona
na esperança fiz carona
pra sorrir enquanto voa.
 
Virei criança
e no peito um passarinho
canta, canta o coitadinho
e quanto mais, mais quer cantar
Virei criança
se meu sol está distante
está perto e quem garante
é a razão pra desbravar.
 
Virei criança
empinei meu papagaio
e o danado como um raio
estancou, voou, sumiu.
Mas ser criança
é ter outro simplesmente
bem mais alto e mais coerente
que o primeiro que fugiu.
 
Virei criança
pus no peito uma esperança
pus um doce de criança
na cabeça pra pensar.
Não sei de guerra,
nem de crime nem de morte
benfazejo a minha sorte
tenho o mundo pra brincar.
 
Virei criança
pus na mão do meu destino
um pião bem pequenino
pra girar, meu coração;
e não me importo
se ele gira, se ele roda
e até não me incomoda
se ele andar de mão em mão.
 
Virei criança
vem você, vem ser criança
vem você entrar na dança
vem brincar de pique esconde
e vem gritar
com a maior felicidade
eu vi falar de vaidade
não sei quando, não sei onde.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Boêmio



...........minhas estrelas
...........teus olhos
a canção...........
...........tua voz
meu poema...........
...........teu riso
...........minha mesa
teu corpo...........
meu pileque de amor
é provido do mel
que roubei de seus lábios
teu cabelo é a noite
perfumado, cheiroso...........
teu beijo é gostoso...........
...........e gostoso porque
meu copo, teus lábios
meu vício você...........


(Poema do livro inédito Castelo de ilusões)