O burburinho começa
no meio da madrugada;
os homens andam depressa,
mercadoria espalhada,
cavaletes, tabuleiros.
“Estica a lona, ô José,
Aperta o nó, companheiro.”
“Seu Jorginho tem café
fresquinho, saiu agora.”
“ai meu dedo, seu mané!
Quase arranca o dedo fora
ai que dor!”
“Preste atenção
puxe a lona pra direita
faça um laço no cordão
puxa, estica, aperta, afeita”
e segue a luta renhida
e a feira vai se formando
e uma garra comovida
vai crescendo, vai tocando
o suor pinga na testa.
Ai meu Deus, me dê coragem
quanto tempo ainda me resta
pra tocar essa engrenagem
madrugada, chuva fina,
vento forte, cerração,
nada foge da rotina
tudo igual na profissão.
Mas a feira está formada
Legumes, frutas, verduras,
flores lindas perfumadas,
queijos, doces, rapadura,
camisolas, camisões,
bugigangas, churrasquinho,
Peixe fresco, camarões,
há de tudo no caminho,
Leitão assado, chouriço
pipoca deliciosa.
Faz o moço um reboliço
com a balança duvidosa
Laranja lima, seleta
Apregoa o “seu Manoel”
na minha rua – completa
até meu limão é mel.
“A laranja é mesmo doce?”
“Ô menina! É uma beleza!
É doce como se fosse
beijo doce de princesa.”
“Se é doce então vale a pena.
Duas dúzias, por favor.”
“De beijos, linda morena?”
“De laranja, meu senhor.”
Seu Manuel ri desmedido
não deveria brincar.
De certo foi atrevido,
tenta se justificar.
“Me desculpe a brincadeira
por favor, não leve a mal.
São trinta anos de feira
é preciso bom astral.”
Faz o menino escarcéu
de banca em banca, engraçado:
“Olha o quibe, olha o pastel
olha o suco bem gelado.”
O velhinho da algibeira
tira um sorriso ancestral
“Vai limão, é de primeira?
São cinco por um real.”
A feira é todo esse encanto,
a gente encontra carinho,
Gente boa divertida,
Alegria costumeira.
Embora a luta renhida,
sempre cabe brincadeira,
e nesse astral segue a vida
e nesse astral vive a feira.
